
Pelo menos 3950 Pequenas e Médias Empresas (PME) beneficiaram recentemente de treinamento oferecido pelo Instituto de Promoção de Pequenas e Médias Empresas (IPEME) e parte delas superou as dificuldades com que se deparavam e já se posicionam no topo do ranking desta categoria de empresas. Depois da formação, muitos pequenos e médios empresários perceberam que o seu problema não era de acesso a financiamento mas, sim, de gestão e organização.
Um dos exemplos de superação apontados pelo IPEME é o do Aviário Isabel e Filhos (AVISA), localizado na cidade da Maxixe, província de Inhambane, o qual era um “sério candidato à falência” por ter sido concebido num mercado que não aprecia galinhas (do aviário), preferindo aquelas que crescem livremente nos quintais.
Para complicar as suas contas, um amigo ofereceu 50 codornizes mas nenhum dos donos do aviário tinha experiência de criação deste tipo de aves, pelo que as deixaram crescer e multiplicar-se ao “Deus dará”. “O número cresceu mas, em pouco tempo, muitas codornizes morreram”, disse Francisco Joaquim, gestor da AVISA.
Graças à formação promovida pelo IPEME, no âmbito do programa Cada Distrito um Produto (CaDUP), Joaquim recebeu formação em gestão de negócios, marketing e valorização do produto, e foi então que percebeu onde residiam as suas maiores fragilidades e também desvendou as oportunidades que aquele negócio ocultava.
Durante o período da formação, que teve a duração de nove meses, Joaquim teve o acompanhamento de especialistas japonesas e brasileiros que lhe deram assistência técnica e inspeccionaram o seu aviário para apurarem o estado das gaiolas e a qualidade da produção.
Com a formação concluída, a AVISA ganhou notoriedade no mercado local, onde o fornecimento de ovos e carne de codornizes, bem como frangos de corte e ração aumentou e saiu da esfera de clientes individuais para um patamar que lhe permitiu receber solicitações de empresas do ramo da restauração e hotelaria local.
Aos poucos, e com recurso a uma estratégia de negócio bastante apurada, este pequeno projecto familiar passou a fazer parte do selecto grupo de PME convidadas a participar em feiras e exposições de agropecuária organizadas pelo Governo da província de Inhambane.
“Neste momento temos solicitações de fornecimento que nos chegam das províncias de Inhambane, Maputo, Zambézia e Nampula, coisa que nunca tínhamos imaginado que fosse possível”, sublinha.
Por causa deste salto empresarial, com ênfase para o aumento do volume de produção e vendas, associado à qualidade, a AVISA foi distinguida como um caso de sucesso pelo IPEME e recebeu apoio do Fundo de Desenvolvimento Agrário (FDA) que lhe permitiu melhorar a sua capacidade de produção e de oferta.
FAZER DIFERENTE
Outro exemplo de superação é a Steel Work, empresa do ramo da serralharia que, pela caminhada feita, se agiganta no ranking do IPEME. O dono desta empresa, Victor Manuel, recorda que aprendeu do pai a lidar com metais e estruturas metálicas mas que, naquela época, e até criar a sua própria oficina, tudo era feito de forma empírica. “Trabalhávamos debaixo de uma mafureira”, recorda.
A mudança de rumo da sua empresa iniciou em 2012, quando tomou a decisão de deixar de ser informal, pois esse regime limitava a possibilidade de prestar serviços a grandes empresas de construção civil e até mesmo a alguns clientes singulares com projectos de vulto.
Depois de se formalizar, deixou-se alistar no IPEME onde compreendeu que ser empresa significa ter uma estrutura, capacidade de gestão, organização na produção, contabilidade organizada, entre outros. Conforme revelou, o seu foco é transpor as barreiras da área de gestão e marketing para conquistar mais clientes.
No começo, Victor contava com a ajuda dos irmãos mais novos que, mesmo sem salário, se dispuseram a apoiar a iniciativa mas, volvidos poucos anos, o projecto conta com 24 trabalhadores e possui escritório e uma área de exposição de produtos acabados, para além da oficina.
Aquela empresa produz estruturas metálicas, nomeadamente vedações na base de ferro, grades, portões, fogões simples e semi-industriais, baloiços, diversos artigos para decoração feitos a ferro, estruturas de bancos, janelas, mesas, latas de lixo, faz a manutenção de equipamento hospitalar, entre outros.
“Temos alguns clientes. Mas penso que podemos ter mais, pelo que estamos a arrumar a casa para melhor acomodar os actuais e futuros clientes porque pretendemos ser uma referência no mercado de serralharia”, disse.
Victor Manuel acrescentou que procura apresentar produtos diferentes e com qualidade, e cita como exemplo a recente incursão na produção de fogões semi-industriais. “É um produto novo que está para ser integrado no mercado”.
MAIS ASSISTÊNCIA
Para os gestores do IPEME, estes exemplos evidenciam que nem sempre o problema das PME reside no acesso ao financiamento bancário como tem sido dito em diferentes ocasiões. Segundo eles, por detrás das reclamações sobre a falta de apoio financeiro podem estar ocultos constrangimentos diversos, com destaque para a formação, sem a qual a disponibilidade de dinheiro se torna pouco frutífera.
Conforme disseram, há muitos exemplos de pequenas empresas que, depois de beneficiarem de orientação oferecida por especialistas, mudam de ramo e começam a apresentar lucros em poucos meses porque os donos percebem que se tinham enganado na escolha do tipo de negócio. “Por isso entendemos que facilitar o acesso ao crédito não é tudo. Muitas vezes o problema é de organização contabilística e noções básicas de gestão”.
Claire Zimba, director do IPEME tem vindo a desencadear acções de literacia financeira e de orientação de projectos para os mais variados programas de financiamento existentes naquela instituição.
Por outro lado, o IPEME tem estado a desenvolver acções de treinamento e acompanhamento empresarial que são precedidas de diagnósticos e pesquisas de base que determinam, não somente, o tipo de produto ou serviço a beneficiar mas também a assistência para a superação de vários constrangimentos verificados nestas empresas.
Conforme apurámos, as capacitações são ministradas nos Centros de Orientação ao Empresários (COrEs) nas provinciais de Maputo, Manica, Sofala, Zambézia, Tete e Cabo Delgado, nas áreas de marketing empresarial, elaboração de planos de negócios, boas práticas de processamento de alimentos, literacia financeira, gestão de negócios, associativismo, identificação e estruturação de ideias de negócios, contabilidade, finanças, entre outros.
Em paralelo, são desenvolvidas outras acções com destaque para o projecto Cada Distrito Um Produto (CaDUP) que é uma metodologia de assistência empresarial em tecnologias e gestão de produção, abarcando pequenas empresas de sectores estratégicos como agricultura, turismo, comercialização agrícola e indústria.



