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A obra que cansou o empreiteiro

Por admin
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A população residente nas cercanias da Reserva dos Elefantes de Maputo (REM) está desesperada. Pediu encarecidamente ao Governo para mandar construir uma vedação capaz de impedir a 

passagem de elefantes para fora dos limites da REM, pois estes ameaçam a vida humana e destroem bens à sua passagem. O Governo encontrou um parceiro disposto a co-financiar a obra, mas seleccionou um empreiteiro que parece não estar talhado para executar a tarefa porque constrói e a vedação cai. Cansado de refazer a obra, o empreiteiro decidiu parar “para puxar o folego”.

 

A população do distrito de Matutuíne, na província de Maputo, que vive a paredes meias com a Reserva dos Elefantes de Maputo (REM) está a adiar uma brava festa alusiva ao fim da construção da vedação com mais de 90 quilómetros de extensão que está a ser erguida há cerca de dois anos com a finalidade de pôr término ao chamado conflito Homem-Fauna bravia.

O referido conflito resulta do facto dos cerca de 400 elefantes ali existentes extravasarem os limites da sua área de residência, nomeadamente a REM, e invadirem aldeias e áreas de cultivo, destruindo tudo à sua passagem, com particular destaque para culturas e habitações, ao mesmo tempo que deixam a população em pânico.

Entre as culturas que os elefantes apreciam e comem com todo o apetite destaca-se o milho, melancia, abobora e vegetais diversos que os humanos semeiam com esforço. Na hora da comichão, alguns elefantes aproximam-se das palhotas e se esfregam nas paredes, deitando abaixo estas casas.

Conforme relata a população em encontros com membros do Governo, já se experimentaram várias técnicas para afugentar aqueles paquidermes, entre as quais se salienta o uso de instrumentos de som e fumaça, mas o resultado tem sido exactamente o contrário. “Os elefantes aproximam-se curiosos e quem se vê obrigado a fugir somos nós”, afirmam.

Porque estas descrições e reclamações se tornaram rotineiras, o Governo encontrou no Banco Mundial um parceiro para co-financiar a construção de uma vedação com exactos 90 quilómetros de extensão, divididos em duas partes, a primeira com 44 e a segunda com 46 quilómetros que, depois de concluídos deverão ser electrificados para repelir eventuais elefantes e outros animais bravios que queiram se deslocar para fora do recinto daquela área de conservação.

Depois de cumpridas todas as formalidades e burocracias atinentes ao concurso público internacional, foi identificada uma empresa sul-africana, denominada Robsons Fencing, que apresentou um projecto com “cabeça, tronco e membros”, incluindo custos que as entidades financiadoras da empreitada consideraram que era exactamente aquilo que procuravam.

Sem objecções, o Governo e o Banco Mundial deram “luz verde” para que a obra arrancasse e disponibilizaram os nove milhões de randes que o empreiteiro tinha indicado como valor suficiente para a execução da tarefa. A seguir, ficaram atentos aos prazos e à qualidade da obra

Dados em nosso poder indicam que a primeira parte da vedação, com 44 quilómetros, devia ser erguida a partir de Outubro de 2011 e terminar em Julho do ano passado. Entretanto, quando a obra arrancou, a administração da Reserva de Maputo e a população das cercanias começou a “torcer o nariz” perante o quadro que vislumbrava.

É que a vedação era erguida e ganhava forma mas, no dia seguinte tudo ia abaixo. As equipas voltavam a pôr tudo em pé e prosseguiam mais uns quilómetros. Pouco depois estava tudo no chão. E assim sucessivamente até passar o mês de Julho de 2012 altura em que aqueles 44 quilómetros deviam estar todos em pé.

Armando Nguenha, administrador da Reserva, revela que neste troço “o empreiteiro construiu 34, pelo que falta erguer os restantes 10 quilómetros de vedação”.

Mas a segunda fase daquela obra é que está bem longe de chegar ao fim. Ngenha indica que dos 46 quilómetros previstos o construtor só conseguiu levantar 20 quilómetros de vedação, pelo que tem pela frente 26 quilómetros por concluir e entregar à REM. “O prazo previsto era de iniciar esta segunda fase em Março de 2012 e entregar-nos em Outubro do mesmo ano”, disse Nguenha.

Para surpresa geral, e conforme nos revelou o administrador da REM, o empreiteiro entendeu interromper a construção sem desculpa aparente, o que levou o Governo distrital a convocar uma reunião para perceber porque a obra está paralisada e tão atrasada.

No referido encontro, realizado na semana passada, a empresa Robsons Fencing terá prometido concluir toda a obra (cerca de 36 quilómetros de vedação) até Julho deste ano, o que significa que só lhe restam cerca de três meses. “Se conseguir chegar ao fim e não tivermos problemas de queda da infra-estrutura, penso que o conflito Homem-Fauna bravia vai melhorar muito”, disse.

 

Azares da REM

 

Mas não é só o problema da vedação que está a tirar sono à administração da REM, população de Matutuíne e autoridades locais. O repovoamento faunístico que devia servir de fonte de atracção turística também vai muito mal. Tão mal que nem parece que algum dia começou.

Segundo Armando Nguenha, os governos de Moçambique e da África do Sul aprovaram um plano de reintrodução de pelo menos 1500 animais de diferentes espécies a partir de 2010, estimando-se em cerca de 500 animais a serem importados em cada ano, mas tudo o que foi feito até agora não corresponde à execução do primeiro ano.

Dos 520 animais previstos para serem importados no primeiro ano (2010) só foi possível fazer chegar à REM 53 animais de diferentes espécies. No ano seguinte (2011) também foram introduzidas algumas poucas dezenas de zebras, supostamente por ter ocorrido uma epidemia que poderia colocar em risco a sanidade das outras espécies. Em 2012, ano em que o programa devia terminar, foram transportados 437 animais de diferentes pontos da África do Sul, entre os quais oito girafas.

Mas não foi só o receio de epidemias que fez com que o projecto fracassasse. Dados em nosso poder indicam que havia alguma falta de experiência por parte dos técnicos envolvidos nas operações de captura dos animais. “Estamos a trabalhar no sentido de introduzir cerca de 452 animais de diferentes espécies ainda este ano, sendo que o primeiro grupo poderá chegar nos próximos dias”.

Entretanto, o nosso jornal apurou junto de outras fontes que um dos principais constrangimentos associados à translocação dos 1500 animais está associado ao facto de se tratar de uma doação do governo sul-africano e não de compra por parte de Moçambique. “Se Moçambique estivesse a adquirir os animais teria que pagar cerca de sete milhões de meticais por todo o processo de captura e transporte”, revelaram.

 

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