Aquilo que acontece no nosso desporto não espanta Mário Tafula, para quem “é o que acontece em toda nossa sociedade, na qual assistimos as pessoas a não serem nomeadas por conhecimento, mas por amizade e familiaridade. No desporto entram pessoas sem currículo nem experiência de gestão desportiva, que só arranjam confusão e complicam a vida dos atletas e treinadores”.
É de opinião que da mesma maneira que o desenvolvimento do país começa do distrito “ o desenvolvimento do nosso desporto devia começar do clube”. No entanto, percebe que o que chamamos de clube não o é na essência.
O ideal para Tafula seria que cada clube moçambicano fosse formado por sócios honorários, beneméritos, efectivos e ordinários, como era antigamente.
“Sócios beneméritos eram dirigentes que se obrigavam ao pagamento de quotas e ao direccionamento de apoios para o pleno funcionamento dos clubes. Para além dos sócios honorários, beneméritos, efectivos e ordinários, um clube era obrigado a ter um espaço para a realização de reuniões, sede que podia funcionar provisoriamente em casa do presidente, e ter um espaço para a prática da modalidade, nesse caso o futebol. Assim eram constituídos os clubes da Associação Africana de Futebol (AFA), agremiação destinada a movimentação do futebol dos nativos, que pela segregação racial não podiam ingressar no futebol organizado pela Associação de Futebol de Lourenço Marques, dos Sporting, Benfica e outros da cidade de cimento”, explica Tafula.
No seu entender, o que presentemente chamamos de clubes “ são grupos de amigos e familiares com objectivos restritamente pessoais, o que faz emperrar todo o sistema desportivo nacional”.
Para Tafula, o Estado “ com o dinheiro dos nossos impostos anda a substituir sócios e o empresariado nos clubes”. Acha que se estaria a copiar o que há de bom nos clubes da Europa, por exemplo, “se o Estado não se transformasse em empresário de clubes. Já teríamos as SAD´s (Sociedades Anónimas Desportivas) a funcionarem. Não é o Estado quem deve financiar o futebol. Até quando, por exemplo, as Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) continuarão a financiar as viagens das equipas do Moçambola? Dia em que aquela empresa pública disser que não aguenta mais, acabou Moçambola! E depois? ”
Em alguns clubes encontramos placas publicitárias penduradas, mas os seus dirigentes estão sempre a gritar pela falta de dinheiro. O que estará a acontecer? Tafula responde que é preciso saber se o que se ganha dessa publicidade vai para os cofres desses clubes ou para os bolsos dos que se consideram donos dos mesmos.
“Hoje as pessoas vão para os clubes para ganharem dinheiro e não para ajudarem os mesmos com o seu dinheiro e conhecimento”.
A conclusão de Tafula é de que “ a organização dos nossos clubes é deficiente. Não se explica que um clube do Moçambola não tenha sócios, sede, nem campo. Pior do que isso, nem camadas juvenis possuem, mesmo que sejam informados pela federação que pelo menos devem movimentar dois escalões de formação”.
Tafula dá o exemplo do seu Ferroviário que se é o ainda é, é porque “antigamente todo trabalhador dos Caminhos de Ferro de Moçambique era seu sócio”. Nessa altura, recorda-se, “ não se tomava banho com balde podre no Ferroviário”.



