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Chega! Já fiz a minha parte

Por admin
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– Watche António na hora de pendurar as luvas

Watche António. 57 Kg, 32 anos. Antigamente não perdia. Só sabia ganhar. Em 2011 ganhou uma medalha de bronze nos Jogos Africanos de Maputo, depois de estagiar em Cuba. Estudos e liderança (dirigiu o departamento de boxe do Matchedje) intrometeram-se na sua carreira. Passou a ter pouco tempo para treinos. Vieram as derrotas. Dia 16 de Setembro perdeu diante do jovem Paulo Jorge, no campeonato da cidade de Maputo, no pavilhão do Estrela Vermelha, onde o entrevistámos.

Watche, acaba de
averbar mais uma
derrota. O que o
motiva a continuar
a combater?
é o facto de gostar do boxe.
Perder é normal. As derrotas
que vou somando demonstram o
baixar do meu nível de pugilista.
Já não estou a corresponder…
Não está a corresponder à
evolução dos mais novos?
Sim, não estou à altura da
evolução dos miúdos.
Com isso quer dizer que o
boxe está no bom caminho?
Nada disso! O nosso boxe
não está bem. Deixe-me explicar
bem porque ainda combato. É
que, mesmo sem treinar, ombreio
com estes miúdos. Espero
que estejam a tirar proveito da
minha experiência.
Afinal não tem estado a
treinar?!
Se estivesse a treinar não
estaria a perder! Mas é bom
que ganhem. Quando combatem
com um campeão, medalha de
bronze africano, meta das suas
carreiras, ficam motivados.
Assiste-se a muita mediocridade
nos campeonatos de
boxe. O que está a faltar?
Faltam competições. Assim,
os atletas param de treinar e
quando não se treina baixa a
qualidade da modalidade.
“BIG-BEN” ESQUECEUSE
DO BOXE
Quem é culpado pela falta
de competições?
Temos a federação. Temos as
associações. Temos os clubes.
Não sei quem não cumpre com
as suas competências. Quando
“Big-Ben” era presidente da Associação
de Boxe da Cidade de
Maputo, mensalmente tínhamos
dois torneios. Agora por semestre
temos apenas uma sessão de
boxe. É muito mau. “Big-Ben”
quando passou a presidente
da Federação Moçambicana de
Boxe esqueceu-se do boxe.
O que esperavam dele?
Eu julgava que o boxe
fervilharia em todo o país
mensalmente. Que Moçambique
viveria o boxe como Maputo viveu
quando ele era presidente
da associação. Ainda bem que
não estamos a ir para as grandes
competições internacionais.
Seria uma vergonha para o país.
Se não estou a perceber
mal, está a dizer que o boxe
não anda bem. Onde buscar a
solução?
O presidente da federação
deve revisitar-se. Se conseguir
isso, o boxe voltará aos carris.
Ele está prestes a terminar
o mandato. Ir embora?
Continuar?
Se sair não sei se o próximo
vai fazer o que ele não fez. Se
continuar, gostaria de o ver fazer
o que fez na associação.
Se não quiser ou se não
lhe for permitido continuar,
quem para si o devia substituir?
Não sei! Mas quando o presidente
da federação era Danilo
Jossubo dava gosto estar no
boxe. Aquele tempo foi bom.
Não sei se hoje com a crise financeira
que se vive ele (Jossubo)
faria o mesmo.
Não há nada a pedir aos
clubes para que o boxe não
continue a morrer?
Talvez pedir ao actual presidente
da Associação de Boxe
da Cidade de Maputo para ir ter
com o “Big-Ben” a fim de saber
como ele conseguia organizar
dois torneios por mês antes de
ascender ao cargo de presidente
da federação.
Apoiaria a candidatura do
actual presidente da associação
à presidência da federação?
É difícil responder a essa
pergunta. Se estamos a dizer
que não consegue organizar,
pelo menos, dois torneios por
mês na cidade de Maputo, que
iria fazer na federação? Teria de
crescer muito.

Matchedje já não respeita o boxe

É verdade que o Matchedje
vem chutando o boxe para
fora do clube outrora sua
maior bandeira desportiva?
O Matchedje já não está a
respeitar o boxe. Já não tem
consideração pela modalidade.
Certamente que anda ocupado
com o futebol.
Isso mesmo. Já não se importa
com outras modalidades.
Ainda é chefe do departamento
de boxe no Matchedje?
Não. Da maneira como o
boxe é desprezado no Matchedje,
se eu continuasse chefe do
departamento andaria aos socos
com os membros da direcção.
Não sei o que está a acontecer
no departamento de boxe.
O equipamento que estamos a
usar é o que usávamos quando
eu era chefe de departamento.
Se já era velho, imagine agora!
Voltou a ser apenas atleta.
Não acha que está a pagar
caro pelo facto de não ter
conseguido resolver o que
devia resolver quando era
chefe de departamento?
A situação piorou. E só pode
inverter-se quando houver mudança
de mentalidde dos que
tomam decisões no clube, este
que é tantas vezes campeão nacional
com o boxe e outras modalidades
e apenas duas vezes
com o futebol nos longínquos
anos oitenta e sete e noventa.
Não aventa a hipótese de
se afastar do recinto do Matchedje?
Não o posso fazer. Sou militar.
Sou do Matchedje. Os
dirigentes passam e o clube
continua. O futuro pode voltar
a nos fazer sorrir. Agora estou
a formar-me em gestão de empresas.
Portanto, vamos continuar
a vê-lo no Matchedje e no
boxe?
Não posso abandonar o
boxe, faz parte da minha vida.
O que sou hoje é graças a ele.
Se estou a estudar deve-se ao
boxe.
Quando dirigentes do
Matchedje entenderem que
o desporto não é só futebol,
chamará os outros para o regresso
ao ringue?
Nós somos uma equipa muito
forte. Só nos falta apoio do
clube. Mas, atenção, o boxe não
está mal somente no Matchedje.
Veja como é maltratado na
cidade de Maputo e nas províncias.
No país o boxe não está
bem.
Quem são os mais culpados,
atletas, dirigentes dos
clubes ou das associações e
da federação?
São os dirigentes. Se não há
competições regulares é porque
os dirigentes não se ocupam da
modalidade. Com bons dirigentes
nós seríamos campeões em
África e no mundo. Estes dirigentes
não pensam em vitórias
mas em presenças. Pior aqueles
que nunca subiram ao ringue.
Confundem boxe com lutas
que assistem nas barracas entre
bêbados que disputam uma
namorada ou uma garrafa de
cerveja.
Vai continuar a competir
por quanto tempo?
Já parei, não está a dar.
Este combate foi o último da
minha carreira. Acabou. A ter
de regressar ao ringue será somente
para bater o tal de Ikbal,
de Nampula, que não gostaria
de terminar a carreira sem o
derrotar.
Quantas derrotas sofreu
durante a carreira?
Quatro derrotas internamente
e tantas outras a nível
internacional.
Valeu a pena?
Valeu. Aprendi a respeitar o
outro homem. O boxe ensinou-
-me a não ser agressivo fora do
ringue. No dia em que ouvir que
espanquei alguém na rua é porque
ele foi o primeiro a me agridir.
Quem me insultar à espera
que lhe espanque perde tempo.
Não é segurança como os
outros pugilistas na busca
de sobrevivência?
Não. Sou funcionário do Ministério
da Defesa. Estou a preparar
o registo da minha empresa,
que publicitarei depois.

Manuel Meque
manuel.meque@snoticicas.co.mz

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