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O culto da imbecilidade

Por admin
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A imprensa pode causar mais danos que a bomba atómica.

E deixar cicatrizes no cérebro– Noam Chomsky

A televisão, segundo o Barão do Itararé, é a maior maravilha da ciência ao serviço da imbecilidade humana. Duro. Cáustico. Esmagador. Não há verdade mais cruel do que essa; a de sabermos que um produto do engenho humano está, infelizmente, também ao serviço da ignorância, do facilitismo e da imbecilidade. E é uma pena…

É uma amofinação porque a televisão devia ter outro papel na vida das pessoas. Aquele aparelho que já reuniu famílias, deliciou multidões – nos tempos dos grupos dinamizadores – revelou coisas do além-mar, estimulou sonhos… mas hoje mete medo. Medo que supera muitas outras provas da natureza. A peste, a guerra, a caça e as bruxas parecem hoje coisa pequena diante do medo que a televisão inspira.

E tudo isso porquê? Porque há programas que são uma exaltação da degradação da sociedade. Programas que apelam para o lado mais sórdido da imaginação humana. Meu Deus. Há programas que literalmente nos fazem levantar as mãos e rezar o Pai Nosso pelas asneiras que passam… o que é que aprendemos quando ligamos a televisão nos dias que correm? Nada. O que assistimos, em muitos casos, é um processo de degradação dos mais nobres valores da vida em sociedade.

Há uma tendência generalizada de primar pelo mais fácil. As audiências não são conquistadas com bons exemplos. Parece que a ideia básica que atravessa o liberalismo moderno é a de que o público deve ser “marginalizado”. Chomsky diz mais: o público, em geral, é visto como nada além de excluídos ignorantes como o gado desorientado”.

Será por isso que vimos há dias uma suposta modelo autoproclamada “Boneca Barbie Humana” ou Jenny para os mais próximos, a dizer “eu sou um gasto em pessoa”? Será por isso mesmo que aberrações cosmogónicas como a protagonizada pela Matilde Conjo – apresentar-se numa entrevista com um aparente guarda-costas – tem espaço de antena? Ou ainda (na falta de melhor termo) o insulto à inteligência colectiva protagonizado pela dupla NP e Melancia de Moz ao encavalitarem-se diante das câmaras da televisão em plena luz do dia?

Será?

Será razoável esse tipo de “pacotes” passarem à hora em que o grosso das crianças está já em casa depois de um estafante dia de aulas? Será que podemos ser telespectadores ao lado das nossas mães, filhos, filhas ou noras para ver programas desse jaez?

Bem, pode-se dizer que ninguém é obrigado a ver; verdade. Mas, por isso mesmo é que noutras paragens há programas que só passam lá pelo fundo da madrugada gélida…

Dizem, à laia de justificação, que alguns programas têm também como objectivo criar um Jet Set moçambicano. Bolas. Jet Set é andar com a bunda ao léu? É esfregar os seios na cara de alguém? É economizar no pano para exibir as carnes gordurosas e atrofiadas, como vimos no famoso “Vibratoques”? Ser artista é andar em roupas microscópicas (e não estamos aqui a falar de vídeo clips)? Alguém acredita que, nos países onde há um Jet Set firmado, alguém teria coragem de ir a uma gala com as fatiotas que vemos por aqui? Será mesmo esse o Jet Set que os moçambicanos merecem?

Os artistas, em qualquer parte do mundo, são tidos como modelos. Milhares de jovens inspiram-se neles. Alguns até acabam se tornando cantores, actores ou pintores em resultado da influência que têm dos seus ídolos. E o nosso Jet Set inspirará a alguma coisa? Não nos queixemos se amanhã as nossas crianças acharem normal uma mulher esfregar os seus seios na cara de um qualquer marmanjo; que não aprendam a fazer os mínimos trabalhos de casa porque “alguém irá servi-los”. Ou a recusarem-se a sair de casa porque não estão devidamente maquilhadas.

Há em tudo isto muito de caricato, mas ao mesmo tempo dramático. Não estamos, nem de longe, a fazer nada para avançarmos. É verdade que é preciso mudar os paradigmas, quebrar barreiras e paredes mas, certamente, não será com humanóides do quilate da Boneca ou de Matilde ou da Melancia ou qualquer outro tubérculo ou fruta de época que o faremos. A educação parece que ainda tem uma longa estrada para corrigir alguns cepos entortados.

A sociedade tem, como um organismo vivo, a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar as palermices que ocupam as primeiras páginas e ou horários nobres de televisão e rádio. Não podemos continuar a ser complacentes. “É normal nos EUA os artistas terem guarda-costas”, disse um amigo de circunstância. Sim é normal lá pelas Américas mas não me lembro de ver, nem mesmo, Obama ou Brad Pitt a dar uma entrevista com um jagunço ao lado. Agora quem é essa daí para ir a uma entrevista com um armário ao lado? E o apresentador? Qual foi a sua atitude? Achou aquilo normal?

Pode ser que o céu me caia na cabeça (roubando a deixa dos gauleses) mas vá alguém, por favor, dizer a essas criaturas acéfalas que o maior valor da vida não é o que está por fora. O maior valor da vida é o que está dentro de nós! 

Belmiro Adamugy

 
belmiro.adamugy@gmail.com

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