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“Não sonhava em ser artista”

Por admin
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Nasceu em Maputo mas passou uma parte da sua infância em Zavala, província de Inhambane. Tem 25 anos de idade. Actualmente, reside no Bairro do Benfica, na cidade de Maputo, e é professor de 8ª e 9ª classes na Escola Secundária da Katembe. Ele é Emílio Luís Liango, jovem artesão e retratista com o qual nossa equipa de reportagem teve uma conversa, não pelo facto de dedicar-se ao ensino, mas sim, por estar a emergir no mundo das artes e mesmo assim já ter trabalhos fascinantes.

Emílio Luís Liango, ou simplesmente ELL, vem de uma família de cinco irmãos, sendo ele o mais novo. Quando tinha apenas cinco anos de idade foi viver para Inhambane, onde fez de 1ª a 5ª classe. Em 1999, já com 10 anos de idade, regressou a Maputo com vista a prosseguir com os seus estudos, onde frequentou nessa época 6ª e 7ª classes na Escola Primária do Benfica. Depois foi fazer o ensino básico na Escola Secundária de Malhazine e, posteriormente, concluiu o ensino médio na Escola Secundária Francisco Manyanga. 

Durante esse período, o jovem já manifestava os seus primeiros sinais de artista através dos desenhos que fazia. Segundo conta, a sua inserção no mundo das artes não foi programada, uma vez que tudo aconteceu de forma natural. Nos seus tempos livres, ou quando entrasse de férias na escola, visitava quase sempre os seus primos e lá a principal brincadeira era desenhar.

Meus primos não faziam o que faço hoje, mas eram muito bons a desenho. Eles não aceitavam faze-los para mim, apenas incentivavam-me a aprender também. E isso foi muito bom. Através daqueles gestos aprendi e hoje em dia faço todos estes produtos, uma vez que antes de materializar tenho de esboçar no papel,disse Emílio Liango.

Em 2006, Emílio ingressou na Universidade Pedagógica (UP), onde frequentou o curso de desenho até 2009. Ele conta que os primeiros produtos como pastas e carteiras começou a fazer quando estava naquele estabelecimento de ensino superior. A primeira vez que fiz uma pasta foi com vista a guardar material escolar, recomendado por um dos meus docentes. E fora a partir daquele trabalho que percebi a minha capacidade de fazer coisas diferentes.

Porque sabia que todos usariam cartolina, e não queria uma pasta igual a dos colegas optou em usar materiais diferentes, que o ajudariam a contrastar com os outros.

Para concebe-la tive que usar folhas de bananeiras, sacos de sisal, bem como serapilheira de coqueiro. Aliás, levei cerca de um mês para apresentá-la a docente. Mas no fim, o resultado foi satisfatório pois era única e todos gostaram. Lembro também que recebi muitos elogios.

Segundo ele, em 2007 realizou-se um programa denominado Portas Abertas, um evento que decorre anualmente na UP, na faculdade de ciências naturais e matemática, no local havia exposição de escultura, pintura, trabalhos científicos, desenhos artísticos, entre outros, de vários estudantes, incluindo ele. O Reitor, Rogério Utui esteve lá e viu todos trabalhos, quando chegou na minha pasta parou e teceu comentários positivos, aquilo foi mágico e serviu de motivação para seguir com a minha carreira artística.

Depois daquele evento, o nosso entrevistado começou a levar as coisas mais a sério. Actualmente faz bolsas, carteiras, chinelos, convites, etc. Para fazer esses objectos usa folha de bananeira, serapilheira de coqueiro, tecido de sisal, fio de pneu para sapato, corda do sisal, madeira para fazer palitos e fechos das pastas, fio de pesca, corda de algodão e esponjas.

Emílio disse à nossa reportagem que adquire os materiais supracitados, nos mercados da cidade de Maputo, mas que a serapilheira de coqueiro é tirada nas lixeiras.

Entretanto o jovem mostrou ao domingo que para além de ser um artesão criativo é também um bom retratista. Ele exibiu a nossa equipe alguns retratos, e disse que o seu primeiro foi feito quando estava no ensino secundário e usou sua própria fotografia. Emílio faz os retratos em folhas A3, A4 e, actualmente, privilegia a presença dos retratados e leva uma hora tempo. 

 

PROJECTOS E DIFICULDADES

Durante a entrevista ficamos a saber que Emílio começou recentemente a divulgar seus trabalhos, pois antes fazia e não se preocupava em difundi-los, a não ser para os conhecidos. Antes ficava a ver se os meus produtos estavam prontos para serem expostos no mercado, pois tinha medo de trazer algo que não agradasse aos moçambicanos.

Actualmente, Emílio sonha em ter um espaço próprio de criação, uma vez que tem estado a depender da varanda da sua mãe, facto que considera um pouco complicado pois acaba de certa forma invadindo o espaço que foi concebido para lazer. Acho que se vendesse mais poderia realizar esse sonho, mas como ainda não tenho clientes suficientes vou me debatendo com esse problema.

Num outro momento nosso entrevistado salientou que ambiciona fazer candeeiro e chapéus na base do material que usa para fazer os seus produtos.E ainda criar parcerias com empresas, ou com individualidades que solicitem quase sempre seus trabalhos, pois isso o ajudaria de um certo modo a realizar seus objectivos.

Gostaria também de levar meu trabalho além fronteiras e torna-lo num produto com uma referência nacional. No entanto, para fazer tudo isso, preciso de garantir mais qualidade nos trabalhos e isso tem o seu preço, algo que por vezes certos clientes não entendem.

Refira-se que nos seus tempos, Emílio gosta de ler livros, ver filmes, novelas, teatro e ainda desenhos animados. Estima também organizar o seu jardim, aliás ele chegou a afirmar que se não fosse artista seria jardineiro. 

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