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EXERCÍCIOS ARTÍSTICOS: Quando a arte sai do “Teatro”

Por admin
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A mente humana é um grande teatro. Seu lugar não é na plateia, mas no palco, brilhando na sua inteligência, alegrando-se com suas vitórias, aprendendo com as suas derrotas e treinando para ser a cada dia, autor da sua história, líder se si mesmo! Assim ensina Augusto Cury e, seguindo a máxima, os alunos de teatro da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane, nesta ponta final do ano, mostram os frutos do processo de aprendizado.

 

Os exercícios de final de semestre e ou de culminação do curso já se tornaram praticamente uma tradição; fora o lado académico, os “espectáculos” têm um público – que cresce anualmente – fiel o que os torna mesmo especiais.

Especiais porque, para alguns estudantes os exercícios, representam na realidade exames das disciplinas performativas e também são oportunidades para mostrarem o que é que aprenderam ao longo das aulas enquanto para outros é o epílogo do curso e a exibição prática dos projectos individuais.

Para a directora do curso de teatro, Josefina Massango, os exercícios têm, para além das apresentações, um lado bastante interessante que é o da interacção com o público.

“As pessoas que vão assistir os exercícios dos estudantes, para além naturalmente dos professores e colegas, têm sempre a oportunidade de interagir com os alunos; podem colocar questões, fazer comentários, criticar ou elogiar um ou vários aspectos”, disse.

Acrescentou que isso dá uma ideia mais próxima da realidade que irão enfrentar fora da academia para além de fortalecer “a ligação que queremos estabelecer entre a academia e a comunidade, o que inclui trabalharem com textos de autores nacionais para além dos clássicos e ou textos de autores estrangeiros”.

TEATRO VIVO

Para a exibição dos exercícios vários espaços foram escolhidos, desde corredores, oficinas, varandas, entre outros, naquilo que se designa por “espaços alternativos” às tradicionais salas de teatro.

A caminha começou com a exibição, pelos alunos do II Ano, da “peça” “O Doente Imaginário” de Molière. O exercício, apresentado numa varanda, foi desenvolvido na vertente de encenação mas avaliado no campo performativo. Molière, como se sabe, foi um génio do teatro francês e universal. As suas peças retratam a paradoxal condição do ser humano e as suas paixões contraditórias.

A peça original conta a história de um velho hipocondríaco, Argan, que se julga doente sem de fato o estar, e que, por isso, acata toda e qualquer ordem do médico que, por sua vez, se aproveita da situação. Argan também quer que sua filha Angélique se case com o filho de um médico para que ele receba tratamento médico como favor de seu genro, ainda que ela estivesse apaixonada por Cléante.

Depois foram os alunos do I Ano apresentarem “Identidades”, um exercício resultante das experiências de vida de cada um dos integrantes da turma. Estes foram avaliados na vertente performativa, isto é Voz, Movimento e Representação.

Depois seguiu-se a história do Casal Palavraki. Este exercício foi dirigido pelo estudante Venâncio Calisto do III Ano. Para materializar o projecto, optou pelas Oficinas da Sociedade do Notícias como espaço alternativo e com o apoio dos actores Assucena Daniel eSidónio Mondlane (por acaso não estudantes da ECA) e música de Virgínia Uamusse (Mbira), mostrou os contornos do quotidiano de um casal através de uma narrativa fragmentada e não linear, que avança e recua no tempo. Entre idas e vindas, tece e desfaz a história do casal protagonista que, enquanto tenta vencer um concurso de dança, precisa de lidar com a responsabilidade do nascimento de sua primeira filha e todas as mudanças que isso gera na vida deles. Aos poucos, o público é mergulhado numa atmosfera de violência e de pesadelo a qual não se pode fugir, expondo a decadência da própria condição humana.

Megue Constance,por sua vez, apresentou um exercício sobre a expressividade do corpo virado para o teatro contemporâneo com base no chamado Teatro Físico. Megue está a cursar teatro no ramo de Representação.

Marcial Macome, do ramo de Encenação, dirigiu o seu exercício baseado nas técnicas de Peter Stephen Paul Brook (Peter Brook); o raciocínio dialéctico de Brook é fruto de experiências do dia-a-dia da oficina-teatro. A sua linguagem é sobre um teatro que deve ser feito, teatro este nascido e testado sobre o palco já vivido. Esse avançar retornando é o tratamento que faz a dialéctica de Brook ganhar um dinamismo extremamente vivo: teatro é feito no vento, todos os dias se destrói, todos os dias se cria, não há fórmulas, não há preconceitos, teatro é brincadeira – essas são suas ideias básicas e elasticamente desdobráveis.

Marcial trabalhou, na exploração de espaços alternativos, com dois actores, nomeadamente Paulo Matope e Fernando Macamo nesta adaptação do texto de Sanchis Sinister, um autor que apresenta sempre uma dinâmica entre tradição e linhas dramáticas contemporâneas. Experimentação e pesquisa são constantes. Esta pesquisa inclui, entre outros:os limites da teatralidade (intertextual, o envolvimento do espectador na ficcionalidade, entre outros aspectos.

RESULTADOS?

Os exercícios e toda a sorte de trabalhos que se vem desenvolvendo na ECA podem, a breve trecho, marcar uma nova guinada no campo das artes cénicas, no geral, e no teatro em particular. Os estudantes têm estado a trabalhar com vários autores e a fazer experiências bastante interessantes; umas mais conseguidas, outras não…

Mas sobra o atrevimento e o engenho de alguns estudantes para mostrar que há trabalho e que os resultados irão surgir. Entusiasmo pelo menos não falta de tal sorte que ainda há pelo menos dois exercícios agendados para amanhã e terça-feira na ECA. Amanha, no Centro Cultural Universitário será exibido o exercício As Malandragens de Xikonyoka pelas 18:00 horas.

O teatro, como se sabe, não poder existir sem liberdade. Na tragédia grega, a polis fazia parte do projecto artístico. A criação da obra de arte teatral é resultado de uma vitória difícil contra uma série de adversidades. Algumas são naturais (a entropia, a indisciplina, o alheamento); outras aparecem e desaparecem de acordo com as épocas (as variações na relação com o estado, a crise económica, o lugar do teatro no sistema de ensino).

As descobertas do teatro coincidem com experiências que desapareceram e que só podem ser repetidas ou enunciadas se para tal houver “engenho e arte”. Será esse o papel dos estudantes de teatro da ECA… o de catapultarem o teatro – sem desmerecimento de outros fazedores desta bela arte – para outros níveis quer sob o ponto de vista técnico, quer sob o ponto de vista de abordagem temática.

Texto de Belmiro Adamugy
belmiro.adamugy@snoticicas.co.mz

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