
Croché é uma actividade que relaxa e dá asas à imaginação. Outrora, mulheres moçambicanas de diferentes faixas etárias dedicavam-lhe tempo criando peças únicas, cheias de beleza e glamour. O tempo passou e as vontades mudaram. Hoje pouco se fala desta arte. O seu valor foi esquecido, quiçá, enterrado algures. Mudaram-se os tempos e as vontades, A verdade é que as mesmas mulheres que ontem foram “craques” nesta matéria, não mais fazem isto e esqueceram-se do mais importante: passar o legado.
Recentemente, domingo conversou com Carla Guilhermina Cassimo, uma jovem formada em gestão turística, 26 anos de idade, que decidiu apostar nesta actividade porque acredita ser fascinante e merecer mais destaque. Através da linha e agulha de croché cria peças impecáveis, de “encher” a vista de quem as vê. Trata-se de camisolas, meias,sapatos, laços,roupas de praia, estojos, entre outras. Acompanhe nas linhas que se seguem a nossa entrevista.
Como surge o gosto por croché?
Tudo começou dentro de casa. Durante a infância assistia a minha mãe fazer toalhas de mesa, panos de enfeite com base no croché e achava aquilo muito bonito. Mas foi vendo a variedade de peças que a minha tia fazia e mostrava, sempre que viesse nos visitar, que decidi aprender a fazer croché também. Ela olhava a actividade de forma profissional e isso encantava-me.
Quando começou? Que materiais usava?
Tinha 11 anos de idade. No início tive um problema. É que por ser criança a minha mãe não me emprestava o seu material, sobretudo a agulha. Mas procurei um ferro e adaptei uma agulha. Daí comecei a fazer os primeiros crochés. Entretanto, só conseguia fazer uma linha recta, manipular a agulha a meu favor era impossível. Não conseguia fazer nenhum modelo.
… E chegou a este nível?
Bem, isso foi resultado da Escola Primária Maria Auxiliadora, na Namaacha. Lá tínhamos várias aulas sobre actividades culturais e sempre que tivesse de praticar algo preferia croché. Aprendi muito. Para além de saber manipular a agulha, comecei a fazer algumas peças de bonecas. No fim daquele ciclo ofereceram-nos agulhas e linhas. Foi uma maravilha. Dali em diante passei a praticar tudo que aprendera.
Qual foi o passo a seguir?
Passei para o ensino secundário e estava numa escola onde já não tínhamos as mesmas actividades. No entanto, continuei a fazer os trabalhos e os manequins eram minhas colegas.
O que costumava fazer?
Fazia muitos laços mas depois que a minha mãe ofereceu-me mais linhas passei a fazer estojos. Tempos depois conheci uma senhora sul-africana que também fazia croché que ao perceber que eu gostava da mesma actividade ofereceu-me várias linhas. Quando as linhas acabaram parei de fazer croché.
Parou por quanto tempo?
A minha pausa foi de cinco anos. Já estava sem linhas e tinha de me focar na faculdade.
O que lhe impulsionou a voltar a esta actividade?
Recomecei a fazer croché em Novembro do ano passado por duas razões: primeiro porque me dei conta de que tinha um dom que já estava a matar. Segundo porque terminei a faculdade e estava sem nenhuma ocupação. Queria reverter a situação.
Não teve complicações quando recomeçou?
Não. Apenas estava sem capital inicial para adquirir as linhas. No entanto, convenci as minhas amigas a comprarem linhas de croché e fiz-lhes biquínis de praia a custo zero. Ficaram felizes, pois as peças saíram lindas.
Valeu a pena?
Sim. Cada uma delas trouxe-me, pelo menos, uma a duas clientes. Na verdade sabia que ao fazer aquele trabalho as pessoas iriam ver e gostar. E assim foi. Consegui algumas clientes.
Está a ter algum retorno?
Gosto de fazer este trabalho. Fascina-me. Mas em termos de valores monetários ainda não está a compensar. Estou na fase de conquista do mercado, por isso não relaciono o trabalho, tempo e valor das peças. É complicado encontrar clientes que assumam que este trabalho exige muito e paguem sem reclamar. Mas acho que um dia chegarei lá.
Que matérias são necessárias para a realização do seu trabalho?
É necessário adquirir agulhas de croché, linhas de croché, tesoura, kit de costura, fita métrica, marcador de carreiras, papel e caneta.Mas por vezes tenho tido algumas dificuldades para adquirir as linhas. Muitos alegam que há pouca gente a dedicar-se a esta actividade.
Que outros meios usa para mostrar os seus trabalhos?
Uso redes sociais tais como Instagram, WhatsApp e Facebook. Tudo o que faço e sou capaz de fazer mostro nestas plataformas.
ACTIVIDADE PARA VELHAS
Croché é uma actividade pouco comum nos dias que correm, há quem diga que é, até um certo ponto, para mulheres da terceira idade… é verdade?
Não. Alguns amigos chegam a gozar-me e afirmam mesmo que é uma actividade para velhas e desocupadas mas isso não me constrange, pois sei que esta é uma arte igual às outras. E repare que aqueles que sempre gozam comigo, quando vêem as peças prontas, descobrem que croché não se resume a toalhas de mesa ou panos para sofás. É mais do que isso.
Não faz croché por um acaso!?
É por amor. Este é meu dom e tenho de usá-lo e valorizo-o bastante. Para além disso, tenho consciência de que tenho o meu mercado-alvo, que, apesar de não estar a alcançar hoje, um dia poderei fazê-lo.
Como assim?
Quando decidi que tinha de voltar a exercer esta actividade fazia biquínis e calções para mulheres e crianças. Criei até uma página chamada summer crochet no Instagram mas não fui muito feliz. Há pouca adesão. As pessoas até gostavam de ver mas têm problemas para comprar. Mas sei que um dia terei mais gente.
Será por conta desta pouca demanda que decidiu incluir à sua lista outros estilos?
Foi tudo um acaso. Uma vez, uma cliente encomendou sapatos para bebés. Foi um desafio, pois nunca tinha feito algo igual mas fui feliz, pois ela gostou muito. O retorno foi o mesmo nas redes sociais e as pessoas descobriram que afinal é possível eu fazer o que me pedem.
Quais os productos que mais solicitam?
As peças mais solicitadas são para bebés. Refiro-me a sapatos e goros. Semanalmente recebo mais de quatro encomendas mirins.
Está mais a falar de peças para mulheres e crianças. O homem não faz parte do seu público-alvo?
(Risos). Não. Só os bebés e crianças, mesmo mas para os adultos não. É que a nossa sociedade não está preparada para os ver trajados de peças feitas a base de croché. Eles podem ser ridicularizados. Há ainda um preconceito.
Onde faz o trabalho?
Faço tudo em casa mas levo as encomendas até a cidade e é lá onde me encontro com os meus clientes. É que vivo em Boane e não é fácil as pessoas irem para lá. Assim sendo, venho até um ponto da cidade que seja fácil para ambos.
E os preços?
(Risos)… bem os sapatos e goros custam 300 meticais, os biquínis são 1200 meticais. 600 tops. O conjunto custa 1200.
Quais as peças que mais lhe roubam tempo por serem as mais difíceis de fazer?
Bem, não há nada difícil, apenas há peças que lavam mais tempo. Com um vestido, por exemplo, é possível chegar a uma ou duas semanas, em contrapartida levo uma a duas horas para fazer sapatos. Um conjunto de biquínis leva por aí um dia inteiro. As meias e goros são menos demorados.
Texto de Maria de lurdes Cossa



