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Artista é trabalhador

Por admin
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Não basta termos um bom espírito,

o mais importante é aplicá-lo bem – René Descartes

Amanhã, um pouco por todo o mundo, assinala-se o Dia Mundial do Trabalhador. Como já é tradição entre nós, milhares de trabalhadores, em todo o país, irão desfilar por algumas artérias das respectivas cidades e não só, manifestando-se, sobretudo, contra o elevado custo de vida, exigindo melhores condições de trabalho e, nalguns casos (?) celebrando o dia com a alegria que deveria ser comum a todos moçambicanos. É assim ano sim, ano sim…

Este ano, porém, tem uma particularidade. Na enorme cadeia humana que se vai formar amanhã, haverá um grupo com características muito peculiares; um grupo que, apesar de parte integrante da nossa sociedade, ainda é olhado de viés: os ARTISTAS!

É milenar o preconceito sobre quem faz arte. Sobretudo nos países pobres. O artista ainda é visto, com raríssimas excepções, como alguém capaz de subsistir só pela arte; ainda há quem julgue o artista como um marginal social, aquele que vive num mundo à parte. Um ser diferente. O artista ainda não é compreendido como um indivíduo que pode produzir dinheiro, que pode ajudar a alavancar a economia da região onde está inserido ou do país. Todos nós sabemos os milhões que as artes movimentam nos Estados Unidos da América ou na África do Sul. As artes contribuem para o PIB de vários países africanos; olhe-se para Nigéria ou Quénia.

É preciso, como sociedade, reconhecermos que o universo expressionista das artes – assegurar expressividade máxima, atingir directamente o público, fazer de cada elemento cénico, do actor, do cenário, da luz e da música, um "elemento de choque", um elemento "que age", portador do "grito da alma", eis o que povoa o universo do teatro, do cinema, das artes plásticas, da música, da gastronomia, jornalismo, literatura etc. Uma reacção violenta contra o realismo e o naturalismo, contra as aparências da realidade material, buscando "desnaturalizar", desembaraçar a cena de todo carácter descritivo, de toda imitação realista para exprimir aí "a essência ", pelo jogo antinaturalista do artista, o simbolismo do objecto, da linha, da cor. Permitir ao apreciador captar o "acontecimento", a realidade profunda.

Mais o conceito de obra de arte é uma construção social, não pode ser um trabalho isolado. A arte possibilita um diálogo com quem a observa, cria situações que podem se tornar desafiantes para o apreciador e, algumas vezes, os materiais utilizados na própria composição propõem uma reflexão sobre o significado da arte.

Ressalta-se ainda o valor de uma educação da práxis artística, preocupada com o aprofundamento de conceitos, critérios e processos, considerando o universo de visualidade do mundo contemporâneo e a complexidade do discurso visual, e nesse contexto, promovendo a ampliação e enriquecimento dos repertórios sensível-cognitivos, aprofundando os modos de ver, observar, expressar e comunicar por meio de imagens, sons ou movimentos corporais.

Urge a criação de um novo tipo de sociedade; evidentemente que um novo tipo de sociedade condiciona um novo tipo de arte. Porque a função da arte vária de acordo com as exigências colocadas pela nova sociedade; porque uma nova sociedade é governada por um novo esquema de condições económicas; e porque mudanças na organização social e, portanto, mudanças nas necessidades objectivas dessa sociedade, resultam em uma função diferente de arte.

Então, e por assim ser, é que os artistas amanhã vão desfilar sob a alegoria “ARTE É TRABALHO. ARTISTA É TRABALHADOR”. A ideia central é marcar presença. Gritar. Dizer ao mundo que existimos. No fundo artistas somos todos nós. A arte tem, certamente, potencial de transformação social, mas este é indirecto, é um potencial de transformação subjectiva, sem o qual a transformação material não se mostra possível. A arte como campo autónomo, enquanto elaboração que segue apenas suas próprias leis – que advêm das leis sociais, porém, não as são -, é o único âmbito que pode ainda ser inútil, no sentido do utilitarismo da sociedade de troca, que pode demonstrar uma possibilidade ainda não real, que pode levar à reconstrução da subjectividade tão danificada pelos anos de dominação, coibição e privação material e intelectual.

A arte, em suma, é a vida. A vida é algo imaterial. Tal como a arte.

O posicionamento inédito dos artistas fala do seu próprio engajamento artístico e à arte autónoma – cujo entendimento é de extrema importância para a relação entre arte e sociedade – só poderia ser compreendido de forma bastante deficiente, caso não se levasse em conta o sacrifício, a entrega, o denodo dos mesmos na produção artística diante da urgência de alimentar a boca.

ARTE É TRABALHO. ARTISTA É TRABALHADOR. É isso. No fundo, bem mesmo no fundo, artistas somos todos nós!

Por Belmiro Adamugy

belmiro.adamugy@gmail.com

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