
Na incursão ao passado do nosso desporto, no caso concreto do futebol, com entrevistas aos antigos jogadores, hoje trazemos José Augusto (Zé Augusto). Ele fala de si, da sua carreira, que não difere tanto da dos outros bons futebolistas da sua geração. Há uma coisa que ele não diz, mas dizemos nós: “Foi último melhor defesa central dos Mambas e do Costa do Sol.”
Zé Augusto, em Nampula e cá em Maputo, uns consideram-no macua, outros maronga. Qual é a verdade?
Sou maronga. Nasci aqui em Maputo, em 1978, a 18 de Abril, no Chamanculo. Mas a minha convivência infantil e escolar foi toda em Nampula. Saí daqui quando tinha sete anos na companhia do meu pai que havia sido transferido para Nampula. Fomos directamente para a Ilha de Moçambique. Fui matriculado numa escola da Aga Khan, onde comecei a aprender o islamismo mais alguma coisa. Aquilo não funcionou para mim porque era proibido comer carne de porco, enquanto eu em casa adorava feijoada misturada com carne de porco. E aprendia a escrever em árabe. Depois passei a aprender a língua emakwa.
Quer dizer, em casa comia carne de porco e na escola fingia seguir os princípios islâmicos!
Isso mesmo. Acabei dizendo a verdade, assim: meus senhores, eu em casa como carne de porco e gosto muito dela. Disse-lhes que eu e os meus pais éramos da religião cristã. Fui retirado daquela escola, mas ganhei muitos amigos muçulmanos de origem asiática.
O que fazia o seu pai na ilha?
O meu pai era polícia e jogava futebol. Estou a falar do pós-independência nacional, mas pode ser que já vinha sendo polícia. Conheci quase todos os distritos de Nampula. Em Moma, o meu pai jogava para um clube denominado Grupo dos Pais. Acompanhava-o sempre aos treinos e aos jogos. Ele era guarda-redes. De tanto acompanhá-lo aos distritos e a Nampula, para onde voltou, ganhei vontade de jogar futebol. Como já tinha altura e pujança, quando faltasse um jogador na equipa deles punham-me a jogar, mesmo contra a vontade do meu pai, que alegava que eu era criança.
Punham-lhe a jogar na baliza?
Quando faltasse o guarda-redes punham-me a jogar à baliza, alegando que filho de peixe sabe nadar, então sendo filho de guarda-redes tinha de saber estar na baliza.
E como se comportava na baliza?
Olha, em jogos de bairros, na companhia de Rui Évora, Zélio, Magalhães, Abdala, Paulito, era indicado para a baliza por ser filho de guarda-redes. Acabei defendendo algumas bolinhas. Depois descobri que quem tinha talento para a baliza era Rui Évora.
Rui Évora em que lugar jogava nessa altura?
Era avançado. Nessa altura cada rua era obrigada a ter uma equipa. Na nossa rua, a Rua Monomotapa, havia um moço indiano cujo pai tinha uma loja, então tornou-se patrocinador da nossa equipa, fundada por mim, chamada Palmeiras de Quelimane, porque ele era de Quelimane. Nós nessa altura admirávamos muito a equipa da capital da Zambézia, Palmeiras de Quelimane. Organizávamos torneios no Estádio de Mokba, junto ao Estádio 25 de Setembro, entre as árvores que serviam de postes de balizas.
Como entra para o futebol federado?
O senhor José Natuguês, que era treinador e chefe do departamento de futebol do Namutequeliua, que voltou a chamar-se Sporting de Nampula cobiçou a mim, Rui e outros. Cedo os outros foram inscritos menos eu.
O meu pai não queria que eu jogasse pelo Sporting (Namutequeliua), queria que jogasse pelo Benfica (Muahivire). Quando ele foi transferido para Lichinga, onde jogava pela equipa das Forças Policiais, forjou-se a minha inscrição pelo Namutequeliua.
Como?!…
Naquela altura para uma criança ser inscrita num clube tinha de ter autorização dos pais. Pedirem ao meu primo Beckam (já falecido) para que substituísse o meu pai. Ele negou. Então, arranjaram outra forma que me permitiu começar a representar o Namutequeliua. Nem sei se aquele cartão tinha meu nome. Numa final com o Ferroviário de Nampula, em juniores, às 13.00 horas, o meu pai, que tinha vindo de Lichinga fazer um jogo regional, o segundo do dia, assistiu o jogo. Alguém lhe terá dito “vamos ver o seu filho a jogar.” Já na bancada, viu-me a jogar pelo Namutequeliua. Eu já era famoso, desde os jogos do bairro. Gritava-se pelo meu nome, o que mais chateou o meu pai. Era juvenil de catorze anos. Já em casa, recebi a ordem de nunca mais vestir a camisola do Namutequeliua. Disse-lhe que aquele clube iria cuidar dos meus estudos e muito mais, mas ele vincou dizendo não, não, não. No ano seguinte fui inscrito legalmente no Muahivire, em juvenis, nos quais só fiz dois jogos. Os senhores Taibo e Amarchande, que eram meus treinadores, puxaram-me para a equipa sénior e comecei a jogar lado a lado com o meu pai, o guarda-redes Augusto.
Não discutiam quando um de vocês falhasse e fosse marcado golo na vossa baliza?
Não havia problema. Só que eu tinha de o chamar de papá em pleno jogo, mesmo que não gostasse. Os outros chamavam-no de Tio Guto.
Não lhe mandava à mer…quando falhasse?
Isso acontecia. Eu evitava falhar. Tinha bom acompanhamento de Totó, de Fernando (filho do guarda), Mazula, mais alguns que estavam no fim de carreira, assim como de Tchoró, Gaby, estes vindos de Quelimane, que era o celeiro do futebol de Nampula. Todos os craques eram de Quelimane.
Sofria muito para travar Braz, avançado do Namutequeliua. Lembra-se?
Fui indicado para travar o leão Braz e consegui. Fui subindo. Vim a Maputo convocado para a selecção sub-17. O meu pai ligou para a federação a exigir a minha devolução para não perder exames escolares. Insistiu, insistiu. Fui assistir os meus amigos a seguirem para o Zimbabwe e regressei a Nampula. Fiz exames e passei de classe e sai da Escola Secundária de Nampula para a Escola Industrial e Comercial de Nampula, que se separavam por uma rede de vedação. Dois anos depois vim convocado e juntei-me ao grupo de Manuel Casimiro, Tonecas e outros. Fomos jogar em Angola e em outros países. Em Angola ganhámos.
Foi nesse momento que passou a jogar pelo Costa do Sol?
Nessa altura o Costa do Sol estava com jogadores, maioritariamente craques, no fim de carreira. Reforçou-se com a equipa da Associação Desportiva de Pemba (Pembinha), dos Riquitos, Pedro Novela, Pintainho…
Em 1987 vim para Maputo jogar pelo Costa do Sol. Fui directo ao Chamanculo. Ninguém do Costa do Sol me procurava. Tive de andar a perguntar onde se localizava a sua sede. Cruzei-me com os dirigentes do Maxaquene (eu já tinha sido treinado por Palma Pinto, treinador “tricolor” na selecção sub-17) que me forçaram a ir para o seu clube e neguei. Quando cheguei ao Costa do Sol ameacei que iria comprar bilhete de regresso a Nampula. Foi quando às pressas me pediram documentação e no mesmo dia levaram-me para a Pensão Nini, na Julius Nyerere, onde morei durante cinco anos e comecei a criar família. Adelino foi desviado para o Matchedje.
DESPREZADO
E ADMIRADO
Quem era o treinador do Costa do Sol nessa altura?
António Bernardo! Que Deus o tenha em paz lá no céu. Ele não me conhecia. Olhou para mim, viu que era robusto e forte, mas não sabia donde vinha. Quando lhe disse que era de Nampula, retorquiu dizendo que aquilo era mato, onde as pessoas viviam em cima das árvores, o que espantou a mim, a Zélio, a Martinho que também tinham vindo de Nampula. Um dia, por falta de pequeno-almoço, não fomos aos treinos. No dia seguinte, António Bernardo disse que não entendia como pessoas do mato, que não sabiam comer com garfo e faca, reclamam de pequeno-almoço.
Esse treinador era moçambicano?
Era de origem portuguesa. Fiquei três meses a chutar a bola para a parede. Comecei a perguntar-me o que estava a fazer, se em Nampula, mesmo júnior, era capitão da equipa sénior do Muahivire. Eu disse que quero ir embora. Tive a sorte de a selecção nacional ter de fazer um jogo fora. Antes teve de fazer um jogo-treino com o Costa do Sol, cuja espinha dorsal estava na selecção. Os “canarinhos” ficaram sem o seu central, Machava. Massango, que era coordenador, sugeriu que eu fosse experimentado. E António Bernardo, finalmente, pôs-me a jogar. Aproveitei a chance de entrar em campo para marcar avançados como Calton. Fiz a plateia aplaudir e já era tido como substituto de Faruk. Depois do jogo com a selecção pedi ao senhor Massango bilhete de regresso a Nampula, porque não queria continuar a chutar para a parede.
Como é que António Bernardo agiu depois?
Foi o próprio António Bernardo a questionar por que eu ainda não tinha assinado o contrato. Assinei. Naquela semana iniciava o campeonato nacional e o Costa do Sol jogaria com aquele grande Estrela Vermelha. Mateus não podia jogar porque estava com gesso no joelho. Fui convocado ao jogo. Exibi-me a contento e nunca mais saí da equipa. Acabou sendo António Bernardo a sair. Os outros, Mateus, Machava, Ribeiro, Afonsinho, Mano Mano, meu irmão Duda foram sendo adaptados em outros lugares. Defesa central só havia um, Zé Augusto. Eu vinha singrar em Maputo. Para isso procurava ter uma vida regrada, ser dedicado, humilde e disciplinado.
Quantos clubes representou durante a sua carreira?
Representei apenas dois clubes, Muahivire de Nampula e Costa do Sol, mais a Selecção Nacional. Sempre a titular.
Quantas internacionalizações teve?
Quarenta e nove. Hoje teria feito mil ou mais jogos. Naquela altura a selecção fazia dois ou três jogos por ano. Agora é quase todas as semanas.
Resisti às drogas e prostitutas
Quando estava no auge da sua carreira já bebia?
Eu vivia na Pensão Nini, onde eram vendidas bebidas alcoólicas, logo na entrada, servida em canecas famosas e meninas atraentes por perto. Já fiz parte de um grupo apanhado por Salvado a beber depois de um jogo perdido.
Resistiu a tudo isso, ao álcool, às mulheres e às drogas!
Resisti às drogas, álcool e prostitutas para poder singrar no futebol. Mas, atenção, não quero dizer que não bebia. Bebia nos momentos de laser e de festas. Bebia uma ou duas cervejas depois do jogo. Já tive treinadores que lá fora onde íamos jogar nos autorizavam a beber um pouquinho para relaxar.
E nunca experimentou consumir droga antes de um jogo para, como se diz, explodir com a menina (bola) nos pés?
Nunca me droguei para jogar. Fumar ou injectar droga nunca fiz. Sou contra isso.
Acha que a sua carreira chegou onde a conduzia?
Não tenho contagem de títulos ganhos. Foram muitos. Deixei de jogar em 2000, já como treinador adjunto. Deixei de jogar quando o Costa do Sol liderava de longe a lista dos campeões nacionais. Hoje está para ser ultrapassado pelo Ferroviário de Maputo. Não nos era permitido não participar nas competições africanos. Tínhamos de ser campeões, vice-campeões, vencedores de Taça de Moçambique ou irmos à final com o vencedor da taça. Hoje pronuncio pouco o nome do Costa do Sol, porque não ganha nada.
Claro, pronuncia mais o nome Ferroviário!
Porque sou treinador do Ferroviário de Pemba. Como treinador já passei pelo Spartak da Catembe, Wane Pone, Associação Desportiva de Chókwè, Benfica de Quelimane, Sporting de Nampula, Têxtil do Púnguè, Ferroviário de Nampula, como adjunto. Pela segunda vez estou no Ferroviário de Pemba.
É sua missão levar o Ferroviário de Pemba ao “Moçambola”?
Essa é a pretensão de qualquer clube, mas não é tarefa fácil. Não basta aproveitar uma poule com três equipas e duas faltas de comparência. Tenho tido azar de ser contratado para salvar as equipas da descida. Tentei isso no Wane Pone quando a equipa perdeu jogadores e treinadores num acidente viação. Não perdi com nenhuma equipa das consideradas grandes de Maputo. Hoje já não há equipas grandes. Todas saem de Maputo a tremer quando vão jogar nas províncias. No nosso tempo, nós íamos a Nampula para comprar amendoim, porque sabíamos que traríamos três pontos. Era uma oportunidade de ir comprar aquilo que cada província produz e rever amigos. Até podíamos informar a federação para acrescentar três ao Costa do Sol na tabela classificativa. O Costa do Sol ostenta quatro títulos consecutivos nos quais eu participei, em alguns casos como capitão da equipa. Ganhávamos o campeonato e taça no mesmo.
C. Sol não fez chegar
meu dinheiro ao INSS
Hoje, aqui de fora, quando olha para dentro do Costa do Sol, o que nota que está a faltar ao ponto de estar a desmoronar?
É muito difícil. Como já disse, agora pronuncio poucas vezes o nome Costa do Sol. Dantes falava sempre dos ganhos do Costa Sol, quer no campeonato quer na Taça de Moçambique. Há quase dez anos que não digo Costa do Sol é campeão nacional.
Ainda é do quadro técnico do Costa do Sol?
Que quadro! Como? Eu não me considero quadro do Costa do Sol. Fiquei algum tempo como treinador de iniciados, donde despontaram João Mazive, Parkim, Guirugo e outros. Quando saí do Benfica de Quelimane desligaram-se de mim. Disseram fica aí, fiquei, fiquei… Nem o que diziam que me descontavam para o INSS (Instituto Nacional de Segurança Social) era verdade. Levei o cartão para lá e o respectivo número. Para o meu espanto, nem nome tenho lá. Não deve ser apenas o meu caso. Descontávamos dinheiro para o INSS que, afinal, não era para lá encaminhado. É triste.
Portanto, não tem nenhuma ligação com o Costa do Sol?
Não tenho.
Mas sente ser do Costa do Sol?
Para mudar um homem tens de mudar o seu sangue. Enquanto tiver o meu sangue de sempre, serei sempre do Costa do Sol. Estaria a mentir para mim mesmo se dissesse que já não sou do Costa do Sol. Se calhar, eu sou Costa do Sol. Sou parte daquelas letras que lêem Costa do Sol. Nos seus 50 anos o clube homenageou alguns jogadores e parou por lá. Eu não sei se o Costa do Sol era de Tadeu, se era de Neves ou se era de Julião.
Porquê?
Mal essas pessoas se desligaram o clube começou a desmoronar. Parece que na sua saída desligaram todos os fios do funcionamento do clube. Até o respeito pelas pessoas que deram tudo de si ao clube acabou. Se calhar, um dia me vão exigir bilhete para assistir aos jogos do Costa do Sol. E se não o fazem agora é porque ainda continuo treinador e ostento um cartão de livre-trânsito. E outros? Imagine-se! Todos esquecidos. Quem tiver sorte será lembrado quando morrer.
Em cerimónias de busca de sorte para o clube.
Isso mesmo. Não é bom servir-se das mortes para “pahlar” (veneração aos espíritos).Se têm algo a dar que me dêem em vida. Não esperem que eu morra.
E o país, ainda se recorda de si? De Zé Augusto que uma vez abafou o orgulho angolano no Estádio da Machava?
Em todo este país, homens e mulheres ainda me chamam “eu e Akwá não vamos jogar”. Não me chamam por Zé Augusto. Graças ao seu título no jornal domingo naquele dia de 1995 em que não deixei jogar Akwá, na altura jogador do Benfica de Lisboa. As pessoas quando não querem esquecer, não esquecem. Sabia que não conheço a nova sede da FMF? Como é que hei-de conhecer lá sem ser convidado para alguma coisa? Se eu quiser passear, vou para o Jardim Zoológico ver se ainda crescem por lá mambas. Um dia fiquei admirado quando mesmo em frente da minha casa, aqui na baixa de Maputo, próximo da mesquita, parou um carro e o seu ocupante começou a buzinar. Afinal, era o antigo ministro da Juventude e Desportos, Joel Libombo, que me queria cumprimentar. Os meus amigos admiraram ver um antigo ministro parar para cumprimentar um Zé que os actuais dirigentes desportivos fingem não o conhecerem. Eu disse que ele se lembra dos momentos em que eu e outros suávamos em defesa de Moçambique, alegrando todos os moçambicanos. Ele, Joel Libombo, conhece a todos e conversa com todos. Pelo menos, há quem ainda se lembra de nós!
Até deve fugir dos carros dos actuais dirigentes com medo de lhe pisarem! Não acha?
Não só me podem pisar, assim como podem perguntar quem é este tipo que não sabe fugir.
Será que ainda temos
terrenos na Catembe?
Já agora, o que construiu no terreno que lhe foi oferecido pelo Estado na Catembe, enquanto jogador dos “Mambas”?
Na verdade foi-nos dito que tínhamos terrenos na Catembe. Nem sei se ainda existem.
Nunca foi à Catembe conhecer tal terreno?
Disseram que nos ofereceram terrenos na Catembe pela qualificação para o CAN 96. Nós em 96 fomos para o jogo realizado na África do Sul e 98 para o Burquina Faso. No primeiro só conseguimos atirar a bola ao poste. No segundo, Adelino marcou um golo na derrota de 3-1, diante da Zâmbia.
Zé Augusto, está a dizer que não receberam terrenos na Catembe!
Talvez vão-nos entregar quando já tiverem construído casas neles para nós. Vamos esperar. Não sei se o projecto da ponte não terá feito desaparecer tais terrenos.
Será que nenhum de vocês conheceu o seu terreno?
Eu não conheci. Quem foi para lá uma vez foi João Chissano com alguém do ministério ou da federação. E tudo terminou por aí. Não sei se o próprio João ainda tem o terreno que lhe foi mostrado.
Está zangado com o país?
Não. Sempre estimarei o meu país. Nem sei se me devo aborrecer com as pessoas. Agora a desculpa é a crise. Nós já vivemos muitas crises, com destaque para a colonização que vivemos centenas de anos. É complicado. Não sei se são as pessoas, se é a política, que não entendo nada e nem quero ser político.
Ganhou muito dinheiro a jogar futebol?
No futebol ganhei muitos títulos, muitas coisas, muita experiência, muitos amigos…
Muita fama! …
A fama vai-se multiplicando. A minha fama parece babalaza de vinho que quando bebes um duplo de gin aumenta. Por onde passo as pessoas aproximam-se de mim como se ontem me tivessem aplaudido no Estádio da Machava a representar o país. Mas dinheiro, nada! O que ganhei foi para comer na hora, naquele dia, naquele ano e mais nada. Mesmo esse dinheiro que vinha do Costa do Sol e da federação, que não era nada, três dólares, sete dólares, dez dólares. Nós no CAN quando recebíamos dez dólares os angolanos recebiam mil e tal dólares. Nós sabíamos que estávamos no CAN para acompanhar os outros.
Já previam derrotas?
Nós sabíamos que íamos para lá perder. As vitórias preparam-se a partir da base. Tens de ter uma estrutura competente desde quem é presidente, desde quem são os que seguem o presidente, até chegar ao técnico, ao médico, descer para os jogadores, para os roupeiros. Se não tens essa estrutura organizada e competente, não podes pensar em bons resultados. Hás-de ganhar um ou dois jogos para uma vez a outra ficar em terceiro, quarto, quinto, sexto, por aí abaixo. É como quem está a afundar e de quando em vez consegue emergir a cabeça das águas para respirar.
Falta respeito ao jogador
Acha que a nós falta essa estrutura?
Está-se a falhar muito. Há muitos clubes a esconderem muita coisa, assim como jogadores. Porque um jogador ou um treinador não pode dizer que não está a ter salário? Não pode calar. Temos de dizer aquilo que afecta as nossas carreiras e as nossas vidas. E porque um dirigente tem de andar a dizer que no seu clube tudo está bem quando não paga salários nem prémios de jogos? Não há nenhum clube sério que não viva da equipa principal de futebol. E quem são aqueles que fazem parte dessas equipas? São pessoas que precisam de cuidar das suas vidas e dos seus familiares. E isso faz-se quando não faltam salários. Deve-se deixar de pensar que o jogador é trabalhador do presidente do clube ou do chefe do departamento. O jogador, treinador, presidente e chefe do departamento são todos trabalhadores do clube. Tem de haver respeito mútuo. O jogador não deve aceitar ser tratado como empregado do dirigente. Afinal, quem é o mais importante no clube? Quem é que toca e dança a música do clube? É o jogador.
E parece que hoje os clubes investem mais nos dirigentes que nos jogadores.
Mas quem mete dinheiro? Quem faz a publicidade? Quem ganha os jogos? Não é o dirigente e nunca será. Falta respeito ao jogador. Dói chegar no clube onde dei muitos títulos e não ser atendido. Pelo menos que finjam que nos conhecem.
O actual presidente do Costa do Sol conhece Zé Augusto?
O senhor Chicualacuala já esteve comigo no seu gabinete logo após ter tomado posse. Foi uma conversa que terminou ali mesmo. Quis fazer papel dele de unificador, mas não avançou.
Já estou a ficar sem perguntas.
Dizer aos senhores que gostam de dar medalhas que quando querem falar de determinada modalidade seria bom que fossem buscar os seus antigos praticantes para que lhes seja ajudado a projectar o futuro. Quem jogou conhece melhor a modalidade. Não é por acaso que a federação zambiana de futebol tem os antigos jogadores como seus trabalhadores e Kalusha como presidente. É por isso que a selecção zambiana fala a mesma língua e nós não a conseguimos bater. Só aqui é onde as coisas acontecem ao contrário. Deixamos que as pessoas usem as federações para se promoverem para voos não desportivos.
Já agora, o treinador moçambicano é bem pago?
Começaria por dizer que tenho uma boa equipa em Pemba, Ferroviário, e um bom presidente, Cristino de Oliveira. Foi pena ter ido para lá quando faltavam apenas oito jogos. Ganhei cinco, perdi dois e empatei um, mas não passámos do terceiro lugar. Regresso em Janeiro com alguns jogadores que possam aparecer e fazer aparecer a equipa até chegar ao “Moçambola” justamente.
No Norte há muitas maneiras de uma equipa chegar ao “Moçambola”.
Nem quero falar disso. Quem de direito deve lutar para impedir a mediocridade no “Moçambola”.
Ainda não respondeu se o treinador nacional ganha bem.
É relativo. Se não deixam de trabalhar é porque ganham bem. É pena que alguns sejam corridos mesmo depois de ganhar. Até parece que ganhar não é bom para alguns dirigentes de clubes.
O que acha do seleccionador nacional, Abel Xavier?
Abel Xavier daqui a algum tempo vai ter a visão real do seu país. Parece que não é fácil meter Europa aqui. O que é fácil é levar os miúdos para irem aprender o que é bom para o futebol. Aqui não há condições para se fazer o que se faz no futebol europeu. Eu trabalhei nas selecções jovens, com um alemão, que mandava embora os miúdos que atrasavam dois ou cinco minutos. E adverti-o que não era bom fazer aquilo, porque aqueles miúdos não tinham transporte e nem lhes davam dinheiro de “chapa”. Ele dizia que na Alemanha todos chegam cedo e que todos conheciam o programa de trabalho. Depois da explicação de Abdul Abdulá ele percebeu que não era possível trazer a Europa para Moçambique.
Quais foram as cinco pessoas que mais contribuíram para o sucesso da sua carreira?
As pessoas que contribuíram para o meu sucesso foram a minha falecida mãe, a minha família toda, todos os meus colegas e amigos, Arnaldo José Salvado e vocês, jornalistas, que me projectaram e me acompanharam.
E os que lhe prejudicaram?
Não tive percalços com pessoas nem com instituições. A mãe da minha primeira filha foi muito determinante na minha carreira, Dina. Tirava-me da cama quando eu de babalaza mentia que não havia treinos. Ela dizia “vai treinar se não ficamos sem o que comer”.
Texto de Manuel Meque



