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Não confiem em quem perdeu a fé

Por admin
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Bula-bulapegou um susto valente há dias. Um amigo – desses do peito mesmo – alertou para o perigo de um gesto, simples, mas que pode, agora, dar em cadeia. Bula-bula ia, como manda o figurino, de pão francês debaixo do sovaco, apreciando as montras das nossas lojas que, invariavelmente, na busca do lucro, mudam todas as semanas de ramo de actividade. Hoje é uma padaria, semana seguinte um bar e ao fim de um mês é uma mercearia/bar onde pontifica o famoso 3-100!

Bem, então para evitar surpresas maiores, ia o incauto Bula-bula em passeata debaixo de uma canícula de trinta e tal graus quando se deu o tal episódio com o tal amigo do peito. E o que é que aconteceu?

Simples. Bula-bula deu uns trocadinhos a uma pobre senhora, dessas de meter dó e pena de tão maltratadas estarem. A senhora estendeu a mão, olhos lacrimejantes, a fazer lembrar uma criança esfaimada: “Estou pidir”, balbuciou.

Gesto natural de quem foi nado e criado em terras moçambicanas, Bula-bula passou as tais moedas… 5 ou 6 meticais em moedas de um metical. Naquele momento, como um estampido, o referido amigo gritou (aquilo parecia o silvo de uma cobra): “Não, meu, não faças isso que ainda acabas nalguma cela”.

Preso? Porquê?

A explicação veio como uma bofetada: foi aprovada uma postura camarária que praticamente criminaliza a mendicidade; ou melhor, aquele que pede esmola e aquele que dá passam, à luz desse dispositivo, a cometer um delito e, portanto, passível de acção punitiva.

Bula-bulaquenão quer problemas com a Lei engoliu em seco. A pergunta saiu disparada em inglês: “What?” Equivalente a “uli hini?” ou “o quê?”. Preso? Caramba. Ajudar agora é um crime? A crise atingiu esses níveis?

Mas o esclarecimento veio como uma gravação: “Dizem que dar esmola é uma infracção, pois incentiva este acto, daí que serão penalizados os indivíduos e instituições que patrocinarem esta acção”.

O amigo de Bula-bulaacrescentou que haverá uma campanha de sensibilização antes da aplicação do “chamboco”, entre outros mimos. A coisa está feia. Bula-bula lembrou-se que, há pouco tempo, na Noruega foi aprovada uma lei similar. Pulga atrás da orelha. Andamos a fazer “copy and past” de coisas de outras paragens? Será que esse dispositivo legal entre nós tem em conta a nossa dura realidade?

Somos conhecidos por ser hospitaleiros. Gajos bons. Agora não podemos ajudar o próximo? Estranho. Quer dizer, um tipo pede-te auxílio porque lhe faltam alguns cobres para apanhar o “chapa” e se te atreves a dar-lhe, “pimba” és penalizado. Por esse andar, sorrir também vai virar crime… Não há maior pesar que recordar com tristeza uma época em que fomos felizes, conclui-se. Ou então não se deve confiar em quem perdeu a fé, como diria Shakespeare.

Quer dizer, um gajo é visto a entregar umas quantas moedinhas a outrem e zumm acaba pagando bem caro. Mas o que intriga mesmo é: acaso o legislador pensou que os samaritanos irão mesmo depositar as suas ofertas num centro qualquer? Confiando em quê ou quem? Não se estará a construir a partir do telhado?

É que no caso da Noruega – só para servir de exemplo – parece que há condições para esse tipo de decisões. É                                                       uma sociedade com bases sócias e económicas bastantes para que se peça aos cidadãos que actuem dessa maneira… não parece que aqui seja assim. Para além de que somos uma sociedade “informal”, há ainda que contar com uma tradição milenar que não nos permite ver um irmão a fenecer e nos mantermos alheios. Parece que alguém está a perder a fé na própria humanidade.

Provavelmente, o legislador devia ler Orson Welles que sabiamente disse que “estamos sós, vivemos sós e morremos sós. Somente através do amor e da amizade podemos ter a ilusão de não estarmos sós” e acrescentamos: e sermos seres sociais.

 

 

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