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Moçambique continua com maior taxa de suicídios em África

Por admin
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A Organização Mundial da Saúde (OMS), num relatório quinta-feira publicado em Genebra, mantém o nosso país como o que apresenta as maiores taxas de suicídio em África. De uma forma geral, aponta o stress e a depressão como determinantes nestas ocorrências.

O documento revela que
Moçambique tem uma
média de 17,3 suicídios
por cada 100 mil habitantes,
a taxa mais elevada
do continente, enquanto a
mortalidade devido a homicídios
é de 3,4 pessoas por 100 mil, colocando
o país, neste item, entre
os três melhores de África.
O Departamento de Medicina
Legal do Hospital Central de Maputo
sublinha que não tem uma
reacção face aos últimos dados
divulgados pela Organização
Mundial da Saúde.
Contudo, segundo a chefe de
departamento, Jacinta Silveria, a
tendência tem sido estável face
aos relatórios divulgados noutros
anos. “Ainda não constatámos
nada de anormal. Vamos estudar
a situação actual”, disse.
Dados de um estudo feito na
Medicina Legal do Hospital Central
de Maputo sobre a prevalência
de suicídios em 10 anos (2000
a 2010) revelou que das 12.732
autópsias realizadas naquele serviço,
80,7 (10.276) foram mortes
não naturais e deste número 8,6
(893) foram por suicídio (Medicina
Legal do HCM, 2012).

Na sequência deste estudo,
liderado pelo Dr. Virgílio Celta
(médico legista) e sua equipa no
Serviço de Medicina Legal, ficou
evidente que a maior parte dos
suicídios ocorreu no domicílio
(581) seguido de local de trabalho
(44), via pública (32) e em unidades
sanitárias (11).
O estudo constatou curiosamente
que todos os suicídios que
ocorreram em unidades sanitárias,
100 por cento (11) foram registados
em serviços de Psiquiatria
e Saúde Mental, o que chama
atenção para a necessidade de
uma atenção especial às doenças
mentais e do comportamento
que podem acarretar maior
risco (esquizofrenia, psicoses,
perturbação bi-polar, depressão,
perturbação de personalidade,
perturbações de controlo dos impulsos e outros).
O suicídio, considerado como
um problema multidimensional,
resultando da interacção complexa
de vários factores, sociais,
fisiológicos, genéticos e biológicos,
é apontado como problema
bastante crítico no país. Do estudo
realizado pelo serviço de Medicina
Legal do Hospital Central
de Maputo, as causas básicas são
enforcamento (604), intoxicações
(104) e precipitações (20).
SUICÍDIOS POR SEXO
Ao contrário dos dados dos
suicídios em que a maioria das
vítimas foi do sexo masculino
71,78 (641), segundo dados do
estudo que temos vindo a citar,
já nas tentativas de suicídio são
encontradas mais mulheres do
que homens.

Segundo especialistas este
aspecto vai de encontro aos dados
teóricos que sustentam o
facto de os homens cometerem
mais o suicídio e as mulheres
fazerem mais tentativas de suicídio.
Dado curioso é que a decisão
de cometer o suicídio não é muitas
vezes tomada rapidamente e
com alguma frequência. Ou seja:
as vítimas contemplam o suicídio
e deixam algumas advertências.
Entrevistas a parentes e
amigos de pessoas que se suicidaram
indicaram que entre 60 e
70 por cento das vítimas chegaram
a afirmar abertamente que
desejavam cometer o suicídio e
outras 20 a 25 por cento haviam
falado sobre o tópico suicídio, fazendo
indicações indirectas das
suas intenções.

Histórias trágicas
Estudos da chamada autopsia
psicológica mostraram que
um significativo número de
suicídios é cometido em contexto
de perturbações mentais
e psiquiátricas, principalmente
referentes à depressão e perturbações
afectivas.
Como se pode depreender das histórias que trazemos, crenças
em relação ao HIV/SIDA têm
contribuído sobremaneira para o
actual cenário. Já a OMS (2000)
alertava para o facto de o HIV/
SIDA representar um risco maior
para o suicídio em indivíduos jovens,
com altas taxas de suicídio.
Um jovem de 23 anos vivia
atormentado por arreliadora
doença de foro gastrointestinal.
Queixava-se de diarreias constantes.
O seu corpo foi definhando
e ficando sem brilho.
Não tardaram as suspeitas de
costume. “Aquilo só podia ser
SIDA”, diziam algumas pessoas.
O jovem rapidamente viu o
chão a fugir-lhe dos pés. Na altura
ter HIV era igual à sentença de
morte. Veio o azedume e o tédio
naturais, ditados pelo auto-isolamento, pelo ostracismo, factores
que só ajudaram a agravar o seu
estado.
Acabou assumindo uma atitude
corajosa: ir ao centro de saúde
para realizar o teste de HIV.
Na unidade sanitária encontrou
profissionais de grande nível.
Feito o aconselhamento pré-teste
e colocados os pontos nos ii sobre
todas as possibilidades e etapas que se seguiriam aceitou picar o
dedo.
Após recolha de sangue
aguardou pacientemente pelo resultado
na companhia de outros
jovens submetidos ao teste anónimo.
A “sentença” veio embrulhada
num papelinho. O jovem correu
para casa cheio de ansiedade.
Seria na solidão do quarto onde
faria a pior leitura da sua vida. O
resultado dizia claramente que
ele tinha HIV.
A tristeza bateu o limite, o
desespero exacerbou-se e sentimentos
negativos perpassaram
uma consciência que já vinha fervilhando.
Pegou na corda, armou
o laço e mergulhou a cabeça. Daí
para a morte foi um instante.
Entretanto, na unidade sanitária
os enfermeiros ficam a
descobrir que houve falha. Os
resultados tinham sido trocados.
O jovem não tinha, afinal, HIV.
Correram para a sua casa. Tarde
demais.
Teresinha, 40 anos, viveu
igualmente uma história triste.
O seu corpo belíssimo foi desfalecendo
por conta de uma
tosse que não cessava. Emagrecia
a olhos vistos, chegando
a pesar 25 quilos.
O marido andou de hospital
em hospital, à busca de cura para
a doença da mulher, debalde. Teresinha
só piorava.
Alguém acabou fofocando: “A
tua mulher só pode ter SIDA”.
O marido não suportou o embate
com a triste notícia. Galgou a
varanda e a partir do quinto andar
do prédio atirou-se. Morreu num
instante.
A família da mulher ficou a
tomar conta da doente. Vários
testes de HIV foram feitos. Nenhum
deles deu positivo. Mais
tarde descobriu-se que Teresinha
tinha, afinal, tuberculose óssea.
Foi tratada e curada. Recuperou o
seu corpo e beleza natural, mas o
marido já era.
A história de Simões e Sandra,
finalistas de Engenharia e
Agronomia, chocou toda a comunidade
estudantil da UEM na década
90. Ele não conhecia o irmão
da namorada. Vendo-o abraçado
a Sandra, pensou rapidamente na
traição. Correu da FACIM, onde se
encontravam, para o lar estudantil,
onde procurou comprimidos.
Tomou a maior quantidade possível
e morreu de "overdose".
A namorada encontrou Simões
estatelado, boca espumante.
Contudo, seguiu a mesma
receita. Consumiu comprimidos
que tinham restado e morreu
abraçada ao namorado.
João já não tinha a conta certa
das dívidas que fizera. O custo de
vida apertava cada vez mais. Os
credores ameaçavam com penhora
de bens.
Optou pelo mais difícil. Bebeu
solução de bateria que lhe causticou
rapidamente os intestinos.
Uma carta deixada à esposa revelava
as razões: “Amor, a vida
venceu-me. Não me arrependo
de ter vivido consigo estes
anos todos. Mas tinha chegado
a hora de partir. Cuida dos nossos
filhos…”
Estas histórias têm de comum
o mesmo gesto de partida para a
morte, seguindo instinto voluntário
que, com melhor reflexão,
podia ser evitado.

Texto Bento Venâncio
bento.venancio@snoticicas.co.mz

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