
Mercê de uma política de marketing raríssima, a Academia Brilho do Sol tem vindo a ser visitada por ilustres personalidades do nosso desporto, que saem de lá admirados pelo elevado nível de organização.
Localizada no Zimpeto, dentro do espaço do Ministério Arco-íris, instituição de caridade que cuida e educa bebés, crianças e jovens necessitados, dentre órfãos e abandonados, a Academia Brilho do Sol é de verdade viveiro de futebol.
Mas, como surgiu esta academia atípica que cresce no bairro de Zimpeto, á beira Av. de Moçambique que se liga com a Estrada Nacional Nº1? Convidamos o empreendedor desportivo Jonas Nhaca, seu presidente de direcção, para as devidas explicações.
Senhor presidente da Academia Brilho do Sol – Íris, não está a fabricar panelas nem a inventar aviões, mas uma “fábrica” de jogadores de futebol. Julga-se empreendedor?
Qualquer ser humano que abraça uma determinada iniciativa pode dizer que está a empreender. Claro que o fenómeno desportivo é muito complexo. Olhando para o actual estágio do nosso desporto se conclui que não é dos melhores. Partimos para este empreendedorismo confiantes de que pode ser útil para a sociedade.
A ideia de construir uma academia resultou de inspiração ou de imitação?
Nem por imitação nem por inspiração. Eu sou desportista desde criança. Agora sou jovem. Aos treze a catorze anos de idade já descobria veia de desportista em mim. O meu pai, Jossuas Nhaca, que foi futebolista do Desportivo de Maputo, incutiu-me o espírito de desportiva e fez questão de me indicar o meu clube, Desportivo de Maputo. Estava proibido de cobiçar outras cores.
Também foi futebolista?
Joguei futebol nos escalões de formação, no Desportivo, 1º de Maio, Estrela Vermelha. Como já percebia que o futebol não era minha porta chave de sucesso, acabei abraçando uma carreira mais empreendedora. Mas tinha que retribuir algo ao desporto nacional. Fiz gestão desportiva pensando em ser bom dirigente desportivo para melhor ajudar as pessoas mais próximas. Então, pensei numa escola, uma academia de formação de jogadores de futebol.
Hoje praticamente ninguém quer primeiro o sacrifício e depois o benefício, quer o contrário, o inverso do que Samora Machel recomendava. Quais são os benefícios de ter uma academia de futebol?
Nesta primeira fase não há benefício em relação ao investimento que estamos a fazer. Muita gente está a aderir ao projecto. Esse benefício será de as pessoas verem crianças a se ocuparem da aprendizagem do futebol. Estamos a tirar as crianças das várias brincadeiras inúteis, como consumo de bebidas, drogas e da prostituição. Fazemos acompanhamento das crianças ao nível desportivo e escolar.
Nos vossos planos consta a venda de jogadores que produzem?
Antes da venda ficaremos felizes pela inserção social de cada criança que formamos. Isso porque estamos a tentar formar o homem do amanhã. Também gostaríamos que a nossa criança possa ser útil aos clubes nacionais e estrangeiros. Claro, quem forma futuramente tem de ser compensado. Não se pode fazer futebol sem dinheiro. Se hoje estamos a gastar é porque esperamos que no futuro sejamos remunerados.
Não sereis empresários camuflados na venda de jogadores, actividade que vem atraindo desportistas moçambicanos?
O futebol é uma indústria que movimenta muito dinheiro. Há compras e vendas. Desse modo os clubes conseguem se suster pagando contratos, salários e prémios de jogos. Se tivermos um bom jogador e for cobiçado pelos grandes clubes, claro que o vamos vender.
Vão trabalhar com empresários de jogadores ou vocês assumirão essa tarefa?
Para uma maior segurança criamos uma empresa denominada Fut Sport Moz que vai trabalhar em coordenação com a Academia Brilho do Sol. A empresa será responsável em pôr no mercado o nosso produto, que é o jogador. Não haverá espaço para aqueles que queiram tirar proveito do nosso produto sem o nosso consentimento.
Para um projecto como este não desmoronar é necessário ter sempre dinheiro. Quem financia a Academia Brilho de Sol?
Só o homem que desafia no futuro pode sorrir. Nós apostamos, organizamo-nos administrativamente para que estejamos preparados a nível financeiro. Dinheiro não o temos. Mas somos ricos de boa vontade e crença. É verdade que acabamos sacrificando as nossas famílias desviando algo dos nossos bolsos para a academia. Estamos a trabalhar com alguns parceiros que nos fornecem algum material desportivo.
Não assistiremos a Academia Brilho de Sol a lutar para chegar ao Moçambola?
Não. Estamos conscientes que não podemos saltar etapas. Nesta primeira fase o nosso lema é formar bons jogadores para os clubes e para as nossas selecções. Vamos criar parceiras com alguns clubes nacionais que possam precisar dos nossos jogadores com o perfil que desejam. Quero com isso dizer que vamos entrar no Moçambola com os nossos jogadores que estiverem a jogar pelo Maxaquene, Costa do Sol, Ferroviário, Desportivo, Liga e outros.
Quantos miúdos estão registados na academia?
Estamos com mais ou menos duzentas e cinquenta crianças registadas e com contratos de formação. Próximo ano vamos ter equipa de infantis, já em preparação. Temos iniciados e juvenis a competirem ano nível da cidade.
Como se casaram com o Ministério Arco-íris?
Posso adiantar que foi um casamento perfeito. Foi em situação de acertar numa luva. Apresentamos um projecto e porque era bom para as crianças necessitadas não ouve receio de aceitação, porque o próprio Centro Arco – iris estava órfão de futebol. Trouxemos o futebol para ocupar as crianças no seu tempo lazer. Estamos a trabalhar de mãos dadas.
Como conseguem trazer tantas personalidades desportivas para a vossa academia?
Que os outros não se sintam mal. É o culminar árduo de um trabalho feito de noite e de dia. São pessoas sensíveis à formação que nos visitam, que aceitam os nossos convites. É importante que as crianças se sintam aproximadas por grandes figuras, por um Domingues, um Dário Monteiro, um Chiquinho, pelo seleccionador Abel Xavier e pelo ministro Alberto Nkutumula. Estamos a assistir academias com trinta e cinquenta crianças e com os respectivos responsáveis de mãos estendidas pedindo dinheiro ao Governo. Não esperemos que o governo venha resolver os problemas das nossas academias.
Texto de Manuel Meque
manuel.meque@snoticicas.co.mz



