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Amarguras do caju

Por admin
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O sector do Caju, que em tempos deu imensas glórias ao país, está a recompor-se a muito custo. Os êxitos até aqui alcançados carecem de adubos para devolverem a auto-estima aos produtores que dizem ter pela frente desafios colossais. Eles almejam chegar ao topo africano, onde pontificam a Costa do Marfim e Nigéria. Mas, o caminho possui carradas de desafios.

Moçambique já foi um dos maiores produtores mundiais de castanha de caju, feito que lhe conferia estatuto e direito a palavra na arena internacional quando o assunto era produzir, processar e exportar aquela amêndoa para os mercados mais exigentes de todos os cantos do planeta.

Entretanto, em resultado de políticas económicas impostas pelas instituições de Bretton Woods, capitaneadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial, toda a cadeia de produção nacional entrou em falência múltipla.

As consequências daquelas decisões, rotuladas de económicas, foram devastadoras para a economia nacional, com a formação imediata de um imenso exército de desempregados, devido ao encerramento das indústrias, quebra das receitas fiscais, entre outros frutos de má memória.

Os anos passaram e as provas do descalabro provocado pelas políticas económicas impostas por instituições credoras foram tão evidentes que hoje se procura dar vida ao desfalecido sector do caju, caracterizado por um parque de cajueiros carente de renovação, uma vez que a maior parte tem mais de 40 anos de vida. 

Luís Lifanissa, secretário executivo da Associação Industrial do Caju afirma que o país precisa assumir de uma vez por todas que este sector pode ajudar a tirar milhares de pessoas da pobreza, combater o êxodo rural e gerar empregos, com todo o efeito multiplicador adjacente.

Para tal, segundo Lifanissa deve se apostar na pesquisa e fomento, não só através do Instituto de Fomento de Caju (INCAJU) AICAJU, mas dos vários actores que intervém na área, assim como na monitoria dos produtores depois de fornecimento de mudas e do respectivo plantio.

O nosso interlocutor adiantou ainda que o país precisa relançar a indústria do caju aglutinando processadores de todas as categorias (micro, pequenos e médios), pois no momento o sector é dominado por grandes processadores.

Consideramos que é importante aglutinar estes grupos para estarmos juntos e termos uma voz única no diálogo com o governo que permita definir políticas orientadas para o crescimento deste importante sector económico”, sublinhou.

No que se refere à produção comercial, hoje praticamente inexistente, Luís Lifanissa disse que o governo devia estimular investimentos de empresas e não contentar-se com o papel do sector familiar, cuja importância é tida como inestimável, mas, incipiente.

É que, os produtores do sector familiar raramente exploram áreas com mais de 10 hectares, facto que poderia ser largamente superado pela intervenção do sector empresarial, ao mesmo tempo que se tornaria fácil a geração de postos de trabalho, transferir tecnologias e demonstrar que é possível viver desta cultura.

Há uma necessidade de relançarmos a indústria em toda a escala. Esta cultura é feita no meio rural e quando não temos empresas a actuarem neste meio, dificilmente se consegue manter as populações no campo”, disse.

Para o nosso interlocutor, as políticas que se desenham para este sector devem ser actualizadas, com particular incidência para o decreto que regula as exportações da castanha de caju, aprovado em 1999, tendo em conta que já passam 16 anos depois da aprovação.

Mais adiante enfatizou que existe também uma preocupação dos poucos operadores do ramo sobre a sobretaxa para a exportação que facilita a concorrência desleal. “Normalmente, verifica-se uma avalanche de estrangeiros que vem a Moçambique, no período de comercialização, para adquirir castanha para depois exportarem”.

UM POUCO DE ALENTO

No entanto, o nosso jornal apurou que está a ser feito um trabalho conjunto, envolvendo o governo e o sector privado com vista a garantir que a castanha seja processada em território nacional e só se exporte o excedente.

Com o resultado deste trabalho pretende-se que no início da campanha as empresas comprem primeiro para abastecer as fábricas de modo a que tenham matéria-prima para processar durante todo o ano, facto que não se consegue actualmente devido à prevalecente concorrência desleal, o que leva a que as fábricas fiquem sem matéria-prima em detrimento da exportação.

Parte destas preocupações foram apresentadas e discutidas no encontro da Aliança do Cajú, realizada há dias em Maputo e, Luis Lifanissa disse que “este tipo de encontro é interessante porque os produtores nacionais tem a oportunidade de interagir com os diferentes parceiros financeiros e operadores de outros países para trocar experiências, analisar os problemas comuns e estudar formas de melhorar o subsector de caju”.

Segundo ele, um dos exemplos a seguir em relação a produção e exportação é o Costa de Marfim porque, até recentemente, o sector do caju daquele país era inexpressivo mas, graças às políticas adoptadas, hoje está a produzir cerca de 650 mil toneladas, a processar 45 por cento internamente e exportando o excedente.

Para o sucesso da Costa de Marfim consta que houve um cometimento do governo local, dos empresários, das instituições de pesquisa que investiram na investigação de clones melhores que produzem acima de 10 quilogramas por pé a partir do segundo ou terceiro ano.

Nós estamos numa situação em que os nossos clones não produzem 10 quilogramas, talvez depois do quinto ano e isso coloca-nos numa situação desconfortável para almejarmos voltar ao grupo dos maiores produtores africanos e, quiçá, mundiais”, ajuntou.

domingoapurou ainda que a quota de exportação no mercado internacional, neste momento é livre, depende da capacidade processamento de cada país e é por aqui onde reside a principal evidência de fragilidade.

Conforme apurámos, Moçambique produz hoje cerca de 80 mil toneladas de castanha, contra mais de 250 mil que tinha nos seus melhores tempos. A capacidade de processamento instalada também não vai por ai além pois, é de cerca de 45 mil toneladas e só processa entre 30 e 35 mil toneladas.

Outro dado que caracteriza a fragilidade do ramo se situa ao nível da estrutura da própria AICAJU que já teve 30 membros e, por razões associadas ao acesso ao financiamento, matéria-prima e com o tipo de políticas vigentes, alguns membros não resistiram. Actualmente esta agremiação conta com apenas 13 membros.

PEQUENOS TAMBÉM SE QUEIXAM

Marta Francisco, presidente da Associação das Mulheres de Mabote e Desenvolvimento (AMOMAD), de Inhambane, composta por 22 membros, disse que esta colectividade possui uma área de 20 hectares, com cerca de 600 cajueiros.

Os trabalhos dos membros consistem na preparação de diferentes qualidades de castanha, desde doce, salgada, com piri piri e simples e na destilação de aguardente. “Com o dinheiro que ganhamos com a venda dos nossos produtos dividimos por igual pelos membros”, disse.

Por dia, as mulheres de Mabote processam cerca de 35 quilogramas de castanha e, durante o ano compram até seis toneladas. Entretanto, a associação depara-se com a falta de embalagem específica no mercado nacional.

Por seu turno, Arone Tembe, da Só Caju, uma fábrica de processamento de castanha, cuja matéria-prima é adquirida, sobretudo na zona sul, disse que esta unidade processa entre 120 e 150 quilogramas por dia, tem diversos saberes e abastece alguns hotéis e supermercados de Maputo, para além de exportar para a África do Sul.

Para Arone Tembe, o sector de caju está a progredir a olhos vistos, o que faz com que haja maior competitividade e o que obriga as empresas a optarem por melhor qualidade, no lugar de quantidade. Apesar do crescimento este grupo ainda enfrenta algumas dificuldades relacionadas com a falta de matéria-prima, o que obriga à interrupção do processamento.

Este ano as coisas mudaram. Já temos em grande quantidade mas, o mercado não nos favorece, os nossos antigos clientes aceitaram outros fornecedores. Assim estamos a lutar para conquistar os antigos e novos clientes”.

Em relação a embalagem, a nossa fonte disse que, a princípio, importavam da vizinha África do Sul, entretanto, devido aos custos elevados viram-se obrigados procurar embalagens no mercado nacional.

Angelina Mahumane

vandamahumane@gmail.com
Fotos de Jerónimo Muianga

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