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Trabalhar cá e receber na Zâmbia

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Texto de Jorge Rungo

A população de Zumbu passa por maus bocados quando pretende fazer operações bancárias ou quando pretende resolver assuntos de fórum judicial, administrativo, académico e até mesmo para uma simples visita a familiares e amigos que se encontram no resto da província.

Para o caso dos funcionários públicos, que são cerca de 550 em todo o distrito, e cujo salário só é possível auferir por via bancária, a saída mais simples consiste em apanhar um barco e atravessar o rio Zambeze em direcção à vila zambiana de Feira, que fica na outra margem. Aliás, Feira é visível a partir de Zumbu. É pertinho, mas a travessia custa 50 meticais. Entretanto, a máquina automática de pagamento, vulgo ATM, da Feira, montada no Investrias Bank, como todas as outras que existem na diáspora, não pagam em meticais. Só kwacha. Ainda assim, a fila de moçambicanos não para de crescer. Logo a seguir vem a tristeza por causa da flutuação cambial. É que, enquanto os funcionários estão à espera de encontrar os seus salários inteirinhos, a taxa de câmbio mexe com as contas e faz com que todos saiam dali maldispostos e assim permaneçam durante todo o mês que se segue. Por exemplo, para quem aufere 5000 meticais líquidos a máquina só liberta uns 4600 meticais. Estas são algumas estórias do Zumbu longínquo que são contadas nas páginas que seguem depois de domingo ter estado recentemente naquele distrito.

Lágrimas de Zumbu

Até há cerca de dez anos, poucos faziam ideia da existência deste ponto localizado no extremo mais Oeste do país, lá nas entranhas da província de Tete. O nome deste distrito “choveu a cântaros” aos ouvidos de todos os moçambicanos quando se passou a enunciar: “Do Rovuma ao Maputo, do Zumbu ao Índico”. Pena é que, apesar da fama, no distrito de Zumbu chora-se porque as dificuldades vencem por goleada.

O distrito de Zumbu tem cerca de 12.100 quilómetros quadrados e perto de 73.000 habitantes. Localiza-se no extremo mais Oeste da província de Tete e do país como um todo, fazendo limite com o Zimbabwe, a Oeste, Zâmbia, a Norte, e os distritos de Marávia e Mágoe a Este e Sul, respectivamente.

Com o distrito de Mágoe, Zumbu partilha parte significativa das águas do rio Zambeze, exactamente no ponto onde se forma a albufeira de Cahora Bassa. Aliás, estes dois distritos partilham todas as potencialidades que aquele imenso curso de água gera, incluindo terras férteis, fauna bravia, recursos pesqueiros e preciosas paisagens virgens.

Até há poucos anos, este pequeno território era tão pouco conhecido que poucos sabiam que não é Zumbo, mas, sim, Zumbu. Com “u”. Prova disso é que a lápide descerrada pelo antigo Presidente da República, Armando Guebuza, no acto inaugural do hospital distrital leva um corrector por cima da palavra Zumbo.

Relatos colhidos junto de testemunhas que participaram na organização daquele evento indicam que, naquele dia, houve um intenso vaivém de elementos do protocolo que empunhavam tinteiros com tinta preta e pinceis, a insistirem em pintar Zumbo com “o” e outros com tinta branca e pincel a fazerem a correcção colocando Zumbu com “u”.

Venceu a equipa de tinta branca e o Presidente Guebuza inaugurou aquele hospital sob aplausos, cânticos, batucadas e danças. E não era para menos. Aquela unidade sanitária é a principal referência do distrito e é igualmente o local onde a esperança de viver se hospeda. A lápide continua ali com o “o” transformado em “u”.

Mas, antes de chegar a Zumbu, com “u”, é preciso estar preparado para uma viagem de categoria cinco, na “escala das aventuras”, daquelas em que tudo deve ser cuidadosamente avaliado porque, se acontece uma avaria pelo caminho… “Adeus”. É sofrer sozinho, na floresta.

Tínhamos como ponto de partida a esplêndida vila do Songo, um dos lugares mais exuberantes que o país possui. Podíamos apelida-la de “Suíça moçambicana”. Pela frente exactos 630 quilómetros de uma mescla de estrada asfaltada e terra batida sem a menor maquilhagem.

Fizemos um pesado farnel de produtos de mercearia que, entre outros, incluía pão, água, bolachas, biscoitos e rebuçados…não fosse o diabo tecê-las em plena floresta. Pior porque o tempo estimado de viagem era de 13 horas, o que no começo soou a ridículo.

Por volta das quatro horas da manhã partimos e 110 quilómetros (km) depois atravessamos a cidade de Tete, numa altura em que a maior parte dos seus residentes ainda ressonava ou se espreguiçava nos quartos, espantando os últimos pedaços de sono.

OITO HORAS

DE SOLAVANCOS

Poucos metros depois da ponte Samora Machel, onde uma meia dúzia de viaturas trafegava fizemos a curva para a esquerda em direcção à fronteira de Cassacatiza, porta de entrada para a Zâmbia. Deste desvio para frente sobravam cerca de 520 km.

Para nossa tristeza, a partir daqui os buracos no asfalto estão a ganhar diâmetro, como se quisessem competir com os embondeiros que dominam a paisagem. São bem grandes em largura e profundidade. Felizmente, o motorista que nos levava naquele moderno Isuzu KB era dos mais experientes que se poderia achar por ali.

Com bastante habilidade e mestria, serpenteou aqueles buracos como se fossem dele. Atravessamos o distrito de Chiúta até chegarmos ao interior do distrito de Chifunde, local onde se diz “tchau” ao asfalto e inicia a verdadeira aventura rumo a Zumbu, que dista 380 km deste ponto.

Em condições normais, este troço poderia ser percorrido em cerca de quatro horas, mas, dada a qualidade do piso, andamos durante oito dolorosas horas. Aquele chão, no lugar de ajudar, só atrapalha. Para reforçar a tristeza de quem por ali circula, há manadas de bovinos, muitos cabritos, porcos, galinhas e cães em quase toda a via… e tem cobras. Que susto!

Como se isso não bastasse, aquela estrada de terra batida e maltratada oferece um pacote de curvas e contracurvas que se intercalam com descidas e subidas, por vezes íngremes, pontes e pontecas com o tabuleiro feito de travessas de madeira, presas por varões de tamanho oito, e sem nenhuma protecção nas laterais.

Para ampliar o leque de obstáculos, o pavimento está prenhe de pedras de todos os tipos e tamanhos que obrigam a que só se circule por ali com viaturas que tenham bons pneus. Mas há mais. Em alguns troços há sinais evidentes de lodo, o que indicia que, no tempo chuvoso, não vale a pena se aventurar por ali.

Por vezes anima observar as placas que indicam que decorrem algures obras de manutenção de rotina daquela via, facto que é reforçado pela presença de um tractor aqui, uma máquina de terraplanar ali, uma camioneta carregada de saibro mais para lá. Mas, obra que é boa, em curso, com homens a suarem as estopinhas, não se vê bem.

Quando o cansaço começa a fazer das suas na mente e no corpo, eis que surge a vila de Fíngoé, capital do distrito da Marávia. Aqui respira-se um pouco porque apesar de todo o castigo que a via provoca aos viajantes, os olhos não se cansam de delirar perante a paisagem virgem, repleta de montes verdejantes e campos agrícolas coloridos por pés de girassol. 

Poucas horas depois, a vila de Zumbu surge no horizonte, entremeada por montanhas nas quais se incrustam casas contruídas maioritariamente com material local e onde os residentes se conhecem e se saúdam quando se cruzam. Respirámos de alívio. O relógio não mentia. Passamos 13 horas certas na estrada. O corpo exigia banho quente e cama.

TRABALHAR CÁ

E RECEBER NA ZÂMBIA

Ainda tratávamos da acomodação quando um jovem enfermeiro se aproximou para saudar e saber o que fazíamos por ali. Naquela pequena vila, os forasteiros são reconhecidos à distância. Entabulamos uma breve conversa na qual apurámos que a falta de uma agência bancária deixa toda a gente estonteada a cada final do mês.

Temos duas opções. Ou vamos levantar o salário no território zambiano, que fica naquela margem, e o dinheiro sai em kwacha, ou somos obrigados a viajar até à cidade de Tete para termos meticais, o que é uma verdadeira dor de cabeça”, disse.

De facto, a população de Zumbu passa por maus bocados quando pretende fazer operações bancárias ou quando pretende resolver assuntos de fórum judicial, administrativo, académico e até mesmo para uma simples visita a familiares e amigos que se encontram no resto da província.

Para o caso dos funcionários públicos, que são cerca de 550 em todo o distrito, e cujo salário só é possível auferir por via bancária, a saída mais simples consiste em apanhar um barco e atravessar o rio Zambeze em direcção à vila zambiana de Feira, que fica na outra margem. Aliás, Feira é visível a partir de Zumbu. É pertinho, mas a travessia custa 50 meticais.

Entretanto, a máquina automática de pagamento, vulgo ATM, da Feira, montada no Investrias Bank, como todas as outras que existem na diáspora, não pagam em meticais. Só kwacha. Ainda assim, a fila de moçambicanos não para de crescer. Logo a seguir vem a tristeza por causa da flutuação cambial.

É que, enquanto os funcionários estão à espera de encontrar os seus salários inteirinhos, a taxa de câmbio mexe com as contas e faz com que todos saiam dali maldispostos e assim permaneçam durante todo o mês que se segue. Por exemplo, para quem aufere 5000 meticais líquidos a máquina só liberta uns 4600 meticais.

Conforme nos foi revelado, o resto do dinheiro é devorado pela famigerada taxa cambial que raramente actua em benefício do metical. Aliás, a nossa moeda, na verdade, serve para pouco ou nada naquelas paragens, ao contrário da kwacha que resolve tudo.

Note-se que nas bancas do lado de cá só se vende bens essenciais importados da Zâmbia e até dão troco em kwacha. Experimentamos comprar uma recarga de telefonia móvel. O vendedor ensaiou fornecer-nos os trocados naquela moeda e recusamos. Não tinha meticais. O câmbio indica que por cada kwacha paga-se cinco meticais.

O administrador do distrito, José Laissone Chissale afirma que “manter os funcionários aqui no distrito no final do mês é um grande problema porque todos recebem o salário via banco e aqui não há um sequer. Na Zâmbia perde-se muito dinheiro com o câmbio, porque a kwacha é a moeda mais procurada ao longo da fronteira e pressiona o metical”.

Num outro momento ouvimos um funcionário público que para ali foi destacado, ido da pomposa vila do Songo. Com a sua identificação omissa, revelou que, dadas as dificuldades que por ali se vivem, o governo distrital “oferece” quatro dias por mês a todos os funcionários interessados em ir levantar os seus salários.

VIAJAR

PARA CÁ DENTRO

Para quem se farta de ser “aldrabado” pela famigerada taxa de câmbio, ou pretende ter um reencontro a sério com o metical, com familiares, amigos e aproveitar resolver pendentes pessoais, a solução é pegar em si e partir rumo à cidade de Tete.

Porque não existe nenhum transporte público ou semi-colectivo que faça a ligação entre Tete e Zumbu, pelo interior desta província, os residentes deste distrito são forçados a empreender uma autêntica odisseia que pode durar mais de 24 horas, com despesas de transporte, alojamento e alimentação. É viajar de verdade.

De Zumbu apanha-se o barco para a vila de Feira, na Zâmbia. São 50 meticais. Na vila de Feira apanha-se um “chapa” até Luangua Bridge e desembolsa-se o equivalente a 150 meticais. Engane-se quem pensa que é tudo. De Luangua Bridge é preciso ir até Catete, troço que se faz a 600 meticais.

Ainda dentro do território zambiano, que tem boas estradas, os residentes de Zumbu fazem mais uma ligação de Catete até Chanida, que lhes sai a 300 meticais. Aqui, em Chanida, o viajante começa a respirar de alívio porque já começa a cheirar à porta da sua pátria, Moçambique. Porém, a viagem ainda não acabou.

Se por ventura o transporte atrasa pelo caminho e chega a Chanida ao meio da tarde, o viajante deverá contentar-se em atravessar a fronteira de Cassacatiza e pernoitar por ali. Na madrugada do dia seguinte é que será possível fazer a viagem triunfal até Tete e, por esta parte final é preciso desembolsar mais 300 meticais.

No final, e só pelo custo de transporte, lá se vão 1400 meticais… e é preciso pensar no regresso, incluindo nas despesas infalíveis com a água, um refrigerante, alimentos e com a dormida. É duro.

Fruto de todo este quadro, a maior parte dos residentes de Zumbu opta pelo mais fácil. Ficar por ali ou ir conhecer a capital da Zâmbia, Lusaka, que dista uns 400 kms e a viagem é feita em estradas de verdade.

Quando temos uma reunião de trabalho ou acções de formação na cidade de Tete ou num outro ponto da província, temos que ser avisados com uma antecedência de uma semana, senão…”, disse o jovem enfermeiro encolhendo os ombros. “Posso garantir que 75 por cento dos residentes de Zumbu não conhece a cidade de Tete”, acrescentou.

ESCOLA ANEXA

ESTÁ A 520 KM

Mas, não são só os adultos que sofrem com a falta de uma ligação directa entre Zumbu e a cidade de Tete. Crianças e adolescentes também apanham na mesma medida porque só podem ir à escola até à 10ª classe. Mais que isso não é possível porque não há escola pré-universitária no horizonte.

Quem entende prosseguir com os estudos deve seguir viagem para a capital provincial, Tete, que como dissemos antes, dista 520 km dali. Aliás, em Zumbu não se passa nenhum Certificado de Habilitações Literárias, porque a escola secundária de lá é anexa à Escola Secundária de Tete.

Prender e viajar

200 kms com o ladrão

O distrito de Zumbu, na parte mais Oeste da província de Tete, tem vontade e coragem de crescer e aparecer, mas falta-lhe força “nas pernas”. Não tem estrada que permita a sua ligação efectiva à capital da província. Também não tem banco e tribunal. Quem comete um crime por ali é levado ao distrito de Marávia, que dista 200 quilómetros (kms) para ser julgado. 

Os residentes deste distrito juram a pés juntos que se tivessem uma estrada de boa qualidade e um banco nas imediações “outro galo cantaria” naquela pequena parcela, porque condições naturais para se desenvolverem Deus lhes ofereceu nos tempos de Adão e Eva.

Por exemplo, a Albufeira de Cahora Bassa começa a formar-se ali e, só por isso, atrai a atenção de turistas que querem tomar contacto com a natureza que se procria livremente e forma um manancial de fazer inveja a algumas das melhores áreas de conservação de flora e fauna do mundo.

Tem famílias inteiras de crocodilos que, aliás, formam uma população assustadoramente grande, os hipopótamos também não ficam atrás, a par dos elefantes que são os verdadeiros senhores da região. Depois seguem outros animais de pequeno e médio porte.

Naquele imenso curso de água que o rio Zambeze forma enquanto ruma em direcção à barragem de Cahora Bassa, há peixes, tantos que o administrador do distrito, José Chissale afirma que se um dia fosse possível secar o rio para ver o que ele esconde nas suas profundezas, o mundo cairia de costas.

O administrador Chissale, que foi para ali destacado há cerca de dois anos, confirma que o potencial agrícola está concentrado nos postos administrativos de Zâmbwe e Muze, onde se cultiva bastante milho, amendoim, feijão e tabaco, este último fomentado pela Mozanbique Leaf Tobacco (MLT).

Pena é que 80 por cento do milho produzido no Zumbu seja adquirido por comerciantes zambianos que actuam de forma feroz na comercialização agrícola local. Estes forasteiros levam o milho para o seu país, trituram-no até virar farinha e vendem o produto final para os camponeses moçambicanos. Mete dó.

É verdade que graças ao Fundo de Desenvolvimento Distrital (FDD) alguns habitantes adquiriram minúsculas moageiras cuja capacidade de farinação é limitada. Assim sendo, e para saciar a fome dos cerca de 73 mil residentes do distrito, só a importação da farinha, feita com o nosso milho, sublinhe-se, é que resolve.

A exportação do milho resulta do facto de Zumbu enfrentar um velho e bicudo problema de ligação com o resto da província, pois a estrada que devia servir para esse fim está carente de obras que tornem possível a circulação de viaturas de transporte de carga.

A ligação de Zumbo com a cidade de Tete, capital provincial, é feita apenas no tempo seco por viaturas da administração do distrito, incluindo a ambulância do Hospital Distrital de Zumbu, que percorrem aquela via passando pelos distritos de Marávia, Chifunde, Chiúta e Moatize. Quando chega a época chuvosa poucos arriscam.

O troço de cerca de 380 quilómetros (kms) que liga Zumbu, Marávia e Chifunde é de terra batida e leva algumas placas que indicam que decorrem obras de manutenção de rotina algures, com empreiteiro, data de início das obras e de fim, fiscal, entre outros.

Porém, nem isso atrai os transportadores mais desesperados a exercerem a actividade naquela via. Nem mesmo aqueles que habitualmente circulam sem documentos ou com viaturas em fase terminal de uso. Zumbu vive numa espécie de isolamento automobilístico não declarado.

É que para além do piso em si, o acesso àquele distrito se torna melindroso devido ao tipo de pontes e pontecas ali construídas, muitas delas visivelmente incapazes de suportar o peso de uma camioneta carregada, quanto mais de camiões a sério.

Mesmo assim, o distrito mostra sinais de vitalidade que, em grande medida, resultam do facto de possuir terras férteis, um bom clima e, sobretudo, uma população que encara o futuro com um optimismo e entusiasmo fora de série. 

Por exemplo, na pecuária eles criam gado bovino em condições de pastagem tão boas que vê-se de longe que as manadas gozam de uma excelente saúde. São bovinos garbosos, da raça “brahman”, que deambulam sob a escolta de meninos pastores que nem imaginam o tamanho da cobiça que vai na cabeça de quem vem de outras paragens.

No que se refere aos caprinos, o distrito de Zumbu tem a mesma fartura de outros pontos da província de Tete, o que faz com que os pouquíssimos automobilistas que por ali transitam tenham a atenção mais do que redobrada. É como caminhar dentro de um aviário.

À semelhança da população de gado caprino, os suínos também chamam à atenção de quem se desloca àquele distrito. De quilómetro em quilómetro é preciso reduzir a marcha para deixar um leitão pretinho atravessar. Por causa deste quadro, um companheiro de viagem rebuscou o seu português mais refinado e disse “isto é um verdadeiro ambiente bucólico”, a querer dizer “rural” 

AI, QUE DELICIA DE PEIXE

No que se refere à pesca, Zumbu tem o privilégio de ser banhado pelo majestoso rio Zambeze, na margem Norte da albufeira de Cahora Bassa. Aqui a pesca está a bater a ponto de deixar os vizinhos zambianos, zimbabweanos e congoleses babados.

Diz-se por ali que a albufeira oferece o peixe-pende mais saboroso da região, o que faz com que a vizinhança estrangeira morra de desejo de degustar este tipo de peixe. Como resultado, diariamente chegam caravanas de zambianos, zimbabweanos, congoleses, ruandeses e até dos distantes angolanos que procuram a sua sorte como pescadores furtivos ou como compradores manhosos.

Na conversa com o administrador do distrito, apurámos que depois de várias colisões entre os pescadores nacionais com os estrangeiros, foi deliberado que nenhum forasteiro pode meter a sua embarcação, rede ou anzol para pescar naquelas águas. A pesca passou a ser “Made in Mozambique”, apesar de não ter selo.

Entretanto, alguns pescadores de outras bandeiras não se conformaram com esta decisão e experimentam momentos de pura amargura na parte moçambicana do rio Zambeze, porque se aventuram para o lado de cá no cair da noite.

Como é por demais sabido, as águas do Zambeze estão infestadas de enormes crocodilos e hipopótamos, e nas margens abundam elefantes dos mais silvestres possíveis que não toleram a companhia de humanos. Aí começa o chamado conflito Homem-fauna bravia. Nas lutas que se desencadeiam, quem ergue a taça da vitória são os animais ferozes.

Conforme apurámos, só este ano 14 pessoas perderam a vida depois de surpreendidas em plena faina por crocodilos assassinos. O pior é que a maior parte das vítimas fatais são jovens, do sexo masculino, que tinham toda uma vida pela frente.

Para a tristeza geral, este ano, no dia da Mulher Moçambicana, 7 de Abril, sete pessoas naufragaram na escuridão da noite e morreram. O administrador do distrito diz que conseguiu apurar que quatro destes náufragos eram cidadãs zambianas que entraram ilegalmente no território nacional para adquirir peixe. “Como entraram ilegalmente, quiseram sair ilegalmente, a noite, com os fardos de peixe”, disse.

Segundo José Chissale, a população do distrito é incentivada a buscar a coexistência pacífica com os animais bravios, mas este esforço muitas vezes redunda em fracasso porque os humanos procuram terras férteis que existem nas margens do Zambeze e nas ilhas que se forma no leito.

Quando os camponeses conseguem produzir nas margens são confrontados com a devastação promovida por elefantes e hipopótamos que se banqueteiam com o milho, abóboras, melancias, entre outras culturas, deixando os produtores famintos e com os nervos à flor da pele. “Muitos elefantes vem da Zâmbia”, aponta Chissale.

Mas, terra fértil de verdade é aquela que se acumula no leito do rio e forma ilhas de variados tamanhos. Essa terra, sim. Não precisa de fertilizantes ou adubos. Como os camponeses sabem disso, para lá se deslocam e fazem as sementeiras. Como é de imaginar, pouco depois, a bicharada lá vai fazer a festa. “O animal mais complicado é o crocodilo”, refere.

PRENDER O LADRÃO

E VIAJAR 200 KMs COM ELE

Apesar destas e de outras dificuldades, na vila sede do distrito de Zumbu não se vive às escuras graças a um acordo que a Electricidade de Moçambique (EDM) mantem com a Eskom da Zâmbia, segundo o qual, a parte moçambicana recebe energia eléctrica durante 21 horas por dia, com o corte a ser efectuado entre as 12 e as 15 horas.

É verdade que a Eskom zambiana produz corrente a partir de um gerador a diesel, o que faz com que em certos períodos os cortes se prolonguem por mais de três horas por falta de combustível, o que enerva à maioria dos jovens que aprendeu a conviver com a luz e já detesta por completo a escuridão.

O último distrito com corrente eléctrica, e que está mais próximo daqui é Marávia, que dista cerca de 200 quilómetros”, disse José Chissale. Nos nossos cálculos, aquela distância, que parece pequena, consome pelo menos quatro horas. Levar a corrente da rede nacional de energia até ali implicaria investimentos descomunais.

Entre outras actividades que os residentes do Zumbu exploram com a energia eléctrica é a audição aos programas da Rádio Moçambique, facto que parece fazer pouco sentido, mas para aquela população é tudo.

A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) ofereceu-nos uma estação completa de rádio comunitária que, entre outros, retransmite o sinal da Rádio Moçambique e assim podemos ouvir notícias e música moçambicana. Isso devolveu parte da soberania a este distrito que só escutava a rádio zambiana”, disse Chissale.

Também anima comunicar-se com o mundo a partir de Zumbu, pois pelo menos duas empresas de telefonia móvel implantaram as suas antenas na vila. Entretanto, a situação que se vive no campo da justiça é que parece pré-histórica, porque não há tribunal naquela vila-sede.

Por causa disso, o ladrão ou qualquer outro criminoso que entende fazer as suas diabruras neste distrito passa pela esquadra local e, depois de tramitado o seu expediente na procuradoria distrital é levado a viajar para Marávia, que como dissemos está a cerca de 200 kms, e o trajecto é todo feito na floresta, para ser julgado.

Felizmente, em Zumbu não acontecem grandes crimes. Há pequenas sessões de pancadaria por causa do consumo de bebidas e ciúmes, e alguns furtos. Como não há muito por onde fugir, quase todos prevaricadores são apanhados ainda a engendrarem o plano de fuga. No segundo passo.  

Jorge Rungo

jrungo@gmail.com

 

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