TEXTO DE GENÉZIA GERMANO
Seis meses após o Governo anunciar medidas para travar o consumo excessivo do “xivotxongo”, a realidade observada nos pontos de venda revela um cenário praticamente inalterado. O consumo mantém-se elevado, os hábitos persistem e as orientações governamentais continuam sem tradução prática no terreno.
A expectativa de mudança, criada com o anúncio oficial, não produziu efeito no mercado. Apesar da subida dos preços, o “xivotxongo” permanece no quotidiano de muitos consumidores. A bebida continua a circular, sem sinais de retracção da procura.
No anúncio, o Governo defendeu uma intervenção com enfoque no controlo do elevado teor alcoólico da bebida, no reforço da fiscalização nos locais de venda, no estabelecimento de regras mais rigorosas para a comercialização e na disciplina da cadeia de distribuição.
A convicção oficial assentava na ideia de que estas acções poderiam reduzir o consumo e limitar os riscos associados à ingestão excessiva do “xivotxongo”. Contudo, passados seis meses, essas orientações não se fizeram sentir no terreno. Não houve controlo do teor alcoólico, reforço efectivo da fiscalização, nem a aplicação de novas exigências legais nos pontos de venda.
A ausência de implementação concreta mantém o mercado a funcionar como antes, sustentado por uma procura constante e fiscalização inexistente. Uma ronda efectuada pelo domingo a vários pontos de venda confirma esta realidade.
Comerciantes ouvidos afirmam que o “xivotxongo” continua a ser vendido nas mesmas condições, sem alteração nos produtos nem presença regular das autoridades. Para os vendedores, a intervenção do Estado ficou circunscrita ao anúncio público, sem impacto real na actividade comercial. A única mudança observada prende-se com o aumento dos preços nos fornecedores. Mesmo com valores mais altos, o consumo não abrandou e a procura mantém-se firme.
NOVA DINÂMICA
Dorcas Daniel, vendedora da bebida espirituosa, explica que os preços variam entre 55 e 130 Meticais por garrafa, dependendo da marca. Segundo afirma, a decisão de subir os valores não foi voluntária, mas imposta pelas circunstâncias do mercado.
Ao falar do comportamento dos clientes, Dorcas é clara ao diz que a subida dos preços não afastou os consumidores. “Nós aumentamos os preços porque onde adquirimos também encareceu. Mesmo assim, compram. Por dia, vendo três ou quatro caixas”, relata, ao sublinhar que a procura mantém-se estável. Para a vendedora, o custo mais elevado não representa um obstáculo significativo para quem é viciado no consumo da bebida.
A experiência de Dorcas reflecte uma tendência comum entre os vendedores. A expectativa de que o aumento de preços pudesse funcionar como travão ao consumo não se confirma. Pelo contrário, os comerciantes observam que os consumidores continuam a procurar o “xivotxongo” com a mesma regularidade, independentemente do valor praticado.
A mesma leitura é feita por Júlio Francisco, vendedor que enfrenta dificuldades crescentes para manter algumas marcas disponíveis. Antes de apresentar números, Júlio explica que o incremento dos preços alterou profundamente a dinâmica do negócio. “Onde adquirimos as bebidas, o preço subiu. Por isso, não tenho algumas marcas”, refere.
Júlio recorda que, anteriormente, uma caixa da marca Bond 7 custava cerca de 600 Meticais e passou para 1000 Meticais. A marca Capitan subiu de 810 para 900 Meticais, enquanto “King” passou de 580 para 900 por caixa. Segundo explica, esses aumentos obrigaram os vendedores a ajustarem os preços ao público, para garantir retorno financeiro.
Apesar dessas alterações, o impacto no consumo foi praticamente inexistente. “Com o aumento do preço nos fornecedores, vimo-nos também obrigados a subir para ganharmos lucros, mas a procura continua. Nada mudou”, afirma. Júlio acrescenta que existem novas marcas no mercado, mas não consegue adquirí-las devido ao custo elevado. Nos bairros onde a bebida é comercializada, o cenário repete-se.
Ângelo Fábio, também vendedor, confirma que todas as marcas registaram aumento e descreve como isso afecta o seu negócio. “Agora vendo ‘Royal’ a 70 Meticais a unidade, pois adquiro uma caixa de 16 garrafas, a 1000 Meticais”, detalha.
Segundo explica, o esforço financeiro aumentou, mas a procura mantém- -se. Ao falar dos consumidores, Ângelo reforça a ideia de que as mudanças ficaram restritas aos preços e às marcas disponíveis. “Mesmo com a subida de preços, a procura continua e nada mudou face aos consumidores. Apenas são as marcas que mudaram e não os clientes”, afirma.



