As atrocidades perpetradas por este grupo (Marcelino, Óscar, Jorge, Sérgio Vieira e outros) não se esgotaram no que ficou dito nos artigos anteriores. Grande parte da nossa sociedade, senão toda, estaria interessada hoje em conhecer as razões que ditaram a exoneração de Mariano Matsinhe, Armando Guebuza e José Carlos Lobo de ministros da Segurança, do Interior e de Recursos Minerais, respectivamente.
A exoneração desses altos quadros do partido dos camaradas e do Governo ocorre nos primeiros anos de Independência.
Tendo o ministro Lobo recebido uma denúncia factual dos trabalhadores do seu pelouro, sobre anomalias graves praticadas pelo então português Santos Garcia, na altura Director Nacional de Geologia e Minas, que se aproveitando do seu cargo, açambarcava e traficava pedras preciosas com destino a diversos cantos do mundo, incluindo a sua terra natal, Portugal. De acordo com as normas e práticas de então, o ministro Lobo apresentou a denúncia junto do Ministro da Segurança que era então Mariano Matsinhe, para os devidos efeitos.
Refira -se que a apresentação de casos desta natureza ao Ministro da Segurança justificava-se não só pela lei da defesa da economia mas, também pela constante agressão, sabotagem e pilhagem sistemáticas da economia nacional, das nossas riquezas e património pelos colonos e seus satélites, muitos deles integrados no Governo por este grupo.
Uma comissão criada pelo ministro da Segurança para aferir a veracidade dos factos viria a provar por a+b que as denúncias feitas correspondiam à verdade.
Perante esta situação, o ministro dos Recursos Minerais e o ministro da Segurança levariam estes factos até junto de Armando Guebuza, então ministro do Interior, para tomar as providências adequadas à situação. Isto é, a instauração do competente processo-crime. Todavia, antes desta acção os três ministros, Lobo, Matsinhe e Guebuza, levaram este assunto junto de Samora Machel, então Chefe do Estado, com a indicação do que a lei previa para estes casos, ou seja, nos termos da lei da defesa da economia, segundo a qual, quem estivesse incurso neste tipo de situações, sendo estrangeiro, a pena de expulsão.
Samora Machel concordou com a proposta dos três ministros e assim Santos Garcia foi exonerado e expulso do território nacional.
Insatisfeitos e inquietos com a decisão de exoneração e expulsão, o grupo e seus apaniguados, por razões obscuras e inconfessáveis, e numa cumplicidade pérfida, urdiram um plano macabro, para reverter a decisão tomada por aqueles três ministros.
Assim, na sequência do referido plano, o grupo, valendo-se da posição de supremacia no seio do partido dos camaradas e do Estado, convenceu o Presidente da República a alterar a decisão de exoneração e expulsão.
Paradoxalmente, os três ministros foram simultaneamente exonerados dos seus cargos e Santos Garcia vitoriosamente regressa ao país e retoma a sua posição de Director Nacional de Geologia e Minas, onde continuaria, e agora com mais poderes e impermeabilidade, a praticar impunemente o roubo e a delapidação dos recursos minerais. É caso para perguntar, a quem servia este senhor? A resposta é simples, limpa e cristalina como água. Este senhor era um dos servidores do grupo que beneficiava materialmente das falcatruas que este praticava no Ministério dos Recursos Minerais. Tratava-se de uma acção concertada ao nível do grupo e este senhor era um mero executor material das operações de saque neste sector.
Os três ministros atrás referenciados, como prémio pela denúncia dos crimes perpetrados por Santos Garcia, que pela sua dimensão lesavam gravemente os interesses do país, foram todos exonerados em simultâneo.
Este episódio algo insólito e que não é isolado, põe a nu o domínio absoluto que este grupo tinha no partido dos camaradas e no Estado, que lhes permitia a seu bel-prazer agir arbitrária e impunemente desde que isso servisse os seus interesses, pois, doutro modo, não se pode compreender que a denúncia de um criminoso, numa atitude de clara actuação em Defesa dos interesses do Estado, possa ser premiada por uma exoneração simultânea de três ministros seniores, dois dos quais do sector de soberania e em pleno tempo de guerra, e por uma bênção ao criminoso.
Recorde-se que, tanto Guebuza como Matsinhe, eram quadros do topo do partido dos camaradas, membros do Comité Político Permanente, tendo sido mesmo assim tratados com leviandade, ligeireza e brutalidade por terem beliscado os interesses deste grupo. Imaginem o que aconteceu a tantos outros anónimos ou não, que na hierarquia social estivessem abaixo daqueles ministros. Cenas de autêntica barbaridade, expulsões arbitrárias, humilhações, desrespeito pela dignidade humana, destruição de famílias e do primado da lei, que conduziram a uma desordem social cujas consequências se sentem até hoje. Estamos a falar aqui não apenas da destruição de pessoas, mas também de instituições na senda do famigerado processo de escangalhamento do Aparelho do Estado que teve como paladino o tristemente célebre José Óscar Monteiro. E porquê o escangalhamento do Aparelho do Estado? Porque desta forma, e só assim, este grupo e seus acólitos ganhariam espaço como veio a ganhar para serem eles o Estado.
Quer dizer, já tinham subjugado o partido dos camaradas às suas vontades, e agora era preciso submeter o povo à sua vontade através do Estado. E conseguiram-no!
Assim, todas as decisões foram tomadas com a sua anuência e beneplácito. Eles eram de facto o Supremo Poder, e é deste poder que emanavam todas as decisões, por isso movidos pelo desígnio de manter esta supremacia sobre o Partido, o Estado e o povo, multiplicam-se em acções para denegrir todos aqueles que encetam acções positivas em prol do povo. Trata-se de uma vã tentativa de recapturar o poder e o Estado.
São os mesmos que hoje se insurgem contra a construção da ponte para Ka-
Tembe, contra a Circular de Maputo, e contra a exploração dos recursos minerais.
Será razoável que num país que se preze, haja vozes que estejam contra a edificação de infra-estruturas tão vitais como estas, cuja importância para
o desenvolvimento do país é inegável?
Nota: Os dois artigos anteriores com este título aqui publicados são também de Silvestre Nungo
Silvestre Nungo



