Ocorreu uma greve de médicos. Prudentemente a Ordem sem condenar a greve, dela se distanciou apelando ao diálogo e lembrou as normas éticas e deontológicas. O mesmo se diga do
pessoal de enfermagem.
Estaremos perante diferentes gerações de médicos, os veteranos e com bons calos de trabalho nas condições mais difíceis e quando se contavam pelos dedos os profissionais moçambicanos de saúde e, uma nova geração, talvez qualificando-a como os médicos da viragem ou da voragem?
Interrogo-me sobre o que recebem os professores, do primário aos catedráticos com muitos e muitos anos de trabalho e concursos? Os agrónomos e veterinários? Os mais diversos engenheiros que constroem barragens, estradas, pontes, centrais eléctricas e levam a energia à povoação? Os polícias, os bombeiros, os militares que com risco de vida servem a pátria? A geração que na luta de libertação que nas cadeias e torturas, nas zonas de guerra gerou a independência? Quanto ganham os administradores de distrito? Quantos cursos e estágios, trabalho difícil para lá se chegar?
Uma grande maioria dos nossos licenciados, incluindo médicos, beneficiou de gratuidade e de bolsas de estudo, nada reembolsam, como noutros países. As propinas que se pagam, para os não bolseiros, mostram-se idênticas para todos, por mais que numa faculdade não se requeira laboratórios, instrumentos, químicos, etc.
Claro que todos os profissionais deveriam beneficiar de boas habitações. Mas casas apenas para médicos? Já encontro casas para médicos nalguns distritos. Ainda muito falta. Os demais profissionais não necessitam delas? Mas já saímos da pobreza? Onde vamos buscar o dinheiro? Lembremo-nos das destruições sofridas neste país pelas guerras de agressão que deslocaram milhões de pessoas, destruíram hospitais vias-férreas, pontes, estradas, queimaram casas, escolas, chacinaram gentes, enfermeiros, professores. Estamos conscientes dos danos causados pelas últimas cheias e os custos da reconstrução?
Quem censurarão os grevistas se algum familiar ou amigo falecer por falta de assistência? Sabemos que na nossa terra crianças morrem de diarreias e muitos adultos também de paludismo. Quem vai assistir os pacientes vítimas destes males se ninguém considerar matéria de urgência?
Dados indiciam que por trás da greve existem forças estrangeiras que desejam desestabilizar o movimento de libertação no poder.
Alguma comunicação social enfeudada a quem a paga, serve o propósito e vai ao ponto de comparar o Che que nunca entrou em greve para ganhar dinheiro e viveu e morreu no sacrifício da entrega, com quem nunca serviu os muitos.
Poucas profissões quando entram em greve afectam toda a sociedade. Polícias, pessoal médico, bombeiros, militares em greve criam perturbações insanáveis em toda a sociedade. Como nos sentiríamos com uma folga para os ladrões e criminosos porque a polícia está em greve? Um desarmar do país porque os militares estão em greve? Casas arderem e pessoas cremadas numa greve de bombeiros? Então, há que dizer que uma greve do pessoal médico assume as dimensões de ameaça a toda a sociedade e mantê-la como refém.
Vi em França e na Inglaterra que face a uma greve que afecta toda a sociedade os Governos requisitavam os grevistas, legalmente isso significava que estavam sujeitos durante a requisição à lei militar e submetidos às penas próprias à deserção aplicadas por tribunais marciais.
Não se trata de requisitar médicos e julgá-los. Compreendo os médicos, mas compreendo as demais categorias profissionais, estou consciente dos limites da nossa economia.
A profissão de médico, do militar, do bombeiro e do polícia assenta num sentido profundo de solidariedade e de responsabilidade social, responsabilidade perante a pátria e os Homens. Não se trata de meras palavras quando muitos as comparam a uma forma de sacerdócio.
Quantas vezes nas zonas rurais vemos gentes levarem umas galinhas, cabritos, ovos, mandioca, milho para ofertarem ao médico, cheios de gratidão porque salvou os seus ou a si. Quantas vezes nas páginas dos jornais nós lemos agradecimentos ao Dr. X e Y? Isto não acontece com outros profissionais.
Esta greve enferma de demagogia, populismo e busca de protagonismo e, por isso mesmo, os médicos veteranos, a Ordem distanciou-se da acção.
Há que melhor compensar os nossos profissionais, sem dúvida, não apenas os médicos, mas há que conhecer os limites e saber que nem sempre o desejável se mostra possível. Talvez diminuir as obras faraónicas e as dívidas que se contraem para as pagar e ver como melhorar a vida dos que trabalham. Proteger mais os moçambicanos e cobrar mais aos megaprojectos, forçar à produção dos produtos acabados dentro do país, criando-se assim mais-valias e maior rendimento. Sim, com certeza, estas mostram-se como vias possíveis, desde que exista o querer. Mas leva tempo.
Abraço o sentido do dever e servir,
Sérgio Vieira
P.S. De cada vez que há eleições há que fazer um recenseamento de raiz deitando-se para o caixote do lixo tudo que existe. Claro que importa então comprarem-se novas impressoras, computadores que ficam a ganhar bolor no longo intervalo. Entretanto os inúmeros membros das comissões de eleições, à sombra do lazer, ficam nesses intervalos de quatro anos a gozar das sinecuras.
Parece que se gastaram cerca de duas dezenas de milhões de dólares nos novos computadores e impressoras que em muitos sítios não funcionam.
Quem devemos felicitar pelas asneiras? Felicitar ou requerer uma investigação pelo Gabinete de Luta Contra a Corrupção.
Há que perguntar se não se mostra viável em vez do recenseamento de raiz apenas actualizarem-se os dados, inscrevendo os novos eleitores e tomando nota dos óbitos, tarefa para os que vivem nas sinecuras. Igualmente poupar-se nas eternas compras de novos computadores e impressoras e apenas se adquirirem novos programas, se necessidade houver.
Um abraço à luta contra o esbanjamento e o nada fazer,
SV
R.P.S. Passaram-se cinquenta e três anos sobre o Massacre de Mueda.
O sangue dos mártires soou como um toque de despertar para toda a minha geração. Poucos anos depois em 64 nós respondemos pelas armas aos séculos de martírio.
Honra e Glória aos nossos mártires, um abraço,
SV



