
Técnicos moçambicanos cultivam uma insólita relação profissional com ratos, tendo no horizonte a busca de uma técnica inovadora de rastreio da tuberculose, promovida e monitorada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Enquanto uns consideram estes animais dóceis, outros caracterizam-nos de “caixinha de surpresa”, atendendo a elevada qualidade que realizam. Há, entretanto, quem confesse ter sido muito difícil aprender a lidar com os ratos, sendo que o medo se foi dissipando à medida que o projecto foi sendo implementado.
É um animal dócil
– Atilano Mendonça, treinador
Atilano Mendonça, 25 anos de idade, é um dos treinadores de ratos na APOPO. Há dois anos no projecto, refere que os ratos representam uma caixinha de surpresa pelo trabalho de qualidade que realizam.
Disse ao domingo que foi treinado por técnicos moçambicanos capacitados na Tanzânia, onde o projecto fixou raízes.
“O treino consistiu em compreender como é que o rato se manifesta, quando indica amostras positivas e negativas”, explica.
Acrescenta que na APOPO existe um manual de técnicas e procedimentos de como lidar com os ratos. “A formação foi, basicamente, encontrarmos no livro uma série de procedimentos que temos de reunir para compreender o comportamento do rato”, salienta.
O gosto por animais foi uma das principais exigências do curso. “Na entrevista de selecção para treinadores perguntam sempre se gostamos de animais. Um dos primeiros requisitos para cultivar essa relação próxima entre treinador e o rato é gostar de animais”, declara.
O entrevistado refere que embora tenham origem selvagem, os ratos têm sido dóceis e afáveis, pois não cresceram propriamente num ambiente selvagem. Explica que os ratos da APOPO resultam de cruzamento de ratos caçados nas montanhas que fizeram crias melhoradas numa colónia de reprodução.
As crias nascem nessa colónia e desde tenra idade são levadas para treinos. “Portanto não crescem no ambiente selvagem. Têm esse lado dócil, mas, como todo qualquer ser, quando a pessoa tenta agredi-los a tendência é defender-se”, observa.
E sublinha: “Para o rato não reagir mal, é preciso acarinhá-lo. Pegá-lo bem. Uma boa técnica é passar a mão pela sua barriga, não o apertar”.
Atilano Mendonça expressa satisfação pelo trabalho desenvolvido pelos ratos, pois, refere, estão a corresponder às expectativas.
O que mais impressionou o entrevistado neste projecto foi precisamente esta capacidade de socialização de ratos e a forma como trabalham no diagnóstico perfeito da tuberculose.
“Antes tinha medo de animais. Com estes ratos aprendo a ser amigo deles. Até penso em seguir uma formação que tem a ver com a Natureza, Biologia, por exemplo”, refere.
No primeiro dia tremi
–Cátia Souto, supervisora da equipa de treinadores de ratos
Cátia, 30 anos de idade, é supervisora dos treinadores de ratos na APOPO. Interessou-se pelo trabalho naquela organização em 2012 quando viu um anúncio no jornal.
“Candidatei-me logo. A entrevista era em inglês, em videoconferência e fui aprovada”, recorda.
Seguiu-se uma ausência do país de três meses para uma formação na Tanzânia. “Neste país aprendi como manipular o rato, como treiná-lo desde tenra idade até ele saber como detectar amostras positivas e amostras negativas de tuberculose”, declara.



